quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Memórias de um Conselheiro Amoroso - Capítulo 1

Pensando na Mudança

E
sse, correndo pelo Calçadão da Praia de Copacabana, sou eu. Ninguém imaginaria que eu, um garoto tímido de Taubaté, estaria sendo abençoado pelos braços abertos do Cristo Redentor.
Desde que cheguei ao Rio de Janeiro, há quatro anos, sempre achei este estado extraordinário. Por cada lado que eu olhava, uma bela paisagem passava por minhas retinas.  Por este motivo, acho que o pedaço da famosa música do Gilberto Gil – que agora não me recordo o nome -, que diz: “o Rio de Janeiro continua lindo...”, deveria ser mudado. O Rio de Janeiro não continua lindo. Ele é, foi e sempre será lindo!
Mesmo o achando lindo, havia uma coisa que me incomodava nele: seu clima quente. Para se ter uma idéia, aqui no verão, os termômetros chegam a marcar mais de quarenta graus. O sol, com o aumento da temperatura, que já era escaldante, fica mais forte. Era impossível, nesta estação, algum ser humano “tomar banho de sol” sem ficar queimado. Eu, principalmente, que era mais branco que queijo mineiro.
Quando ia a praia nesta época do ano, o sol carioca não tinha nenhuma pena da minha pele, deixava-a mais vermelha que tomate de feira.
Após ler esta última frase, acredito que você, achando que não uso protetor solar, deve pensar que sou maluco. Fique calmo, caro leitor! Ainda não preciso ser internado no manicômio.
Nas vezes que ia a praia, o protetor solar se tornava prioridade para mim. Mas, mesmo me lambuzando de protetor – usava os de fator 90, recomendáveis para albinos -, minha pele, depois de retornar da praia, ardia como fogo e era impossível alguém ou alguma coisa tocá-la. Porém, naquela manhã de domingo, uma brisa refrescante me ajudava a suportá-lo.
Algumas pessoas, por causa da falta de tempo, utilizam o domingo para fazer coisas que deixarem de fazer durante a semana. Coisas como: lavar o carro, fazer faxina na casa, passar roupa acumulada, assar um bolo, viajar com a família...; os mais religiosos, seguindo uma liturgia, vão à igreja apenas neste dia; os mais jovens, cansados de acordar cedo para trabalhar ou estudar, aproveitam o primeiro dia da semana para ficar até mais tarde na cama, etc. Domingo era o único dia da semana que eu tinha folga na minha agenda, por isso tinha que aproveitá-lo da melhor forma possível.
A primeira coisa que fazia neste dia, após acordar, era tomar café da manhã. Estando já alimentado, fazia cinco minutos de alongamentos, para que nenhuma articulação minha comece a doer depois dos exercícios. Com o corpo já alongado, posso, finalmente, começar a me exercitar. Por este motivo, comecei este capítulo, escrevendo que eu estava correndo sobre as ondas pretas e brancas de padrão mar-largo.
Naquela manhã, o Calçadão e a Praia de Copacabana não estavam tão cheios, como em outros domingos. Onde esses dois famosos lugares viravam campos de batalha pelo melhor espaço. Tanto que uma vez, vi dois motoristas saírem no braço por uma vaga de estacionamento.
Uma das coisas que mais gostava de fazer, enquanto corria, era observar pessoas. Com a praia e o Calçadão quase vazios, não foi difícil notar duas pessoas que me chamaram muito a atenção: a primeira pessoa era uma idosa que, depois de comprar água-de-coco, abriu repentinamente um enorme guarda-chuva preto; a segunda pessoa foi uma bela moça, que usava roupa de academia, pedalando sua bicicleta sobre a ciclovia, com suas coxas bem torneadas. Duas pessoas que, assim como eu, aproveitavam a brisa fresca daquela manhã de domingo.
Depois das dez da manhã, era comum ver pessoas chegando à praia com cães. A chegada desses indivíduos fazia aumentar um pouco, o movimento do Calçadão. Entre essas pessoas estavam: senhoras, aparentemente ricas, levando pudolls pomposos para passear e surfistas que, além de suas pranchas coloridas, eram acompanhados por imponentes pitbulls, hotvalleys e pastores alemães da vida. Mas, naquele instante, um cãozinho de pelo preto, gordo e de olhos esbugalhados apareceu por lá e mudou a rotina do Calçadão.
Por onde o vira-lata passava, os olhos das pessoas o acompanhavam. Tudo isso acontecia, graças à alegria que ele transpassava ao estar em um lugar com muita gente. A felicidade em estar ali era tão grande que, enquanto caminhava, seu curto e fino rabo não parava de abanar. Uma alegria nada parecida com a expressão de seu dono: um idoso com cara de poucos amigos.
Era uma cena bonita, observar a amizade e o carinho que os cães e seus donos tinham um pelo o outro. Uma cena que não se vê muito, hoje em dia, onde cachorros ferozes atacam bruscamente indefesas crianças na rua. Mas isso não era só culpa dos cães! Por que, existem donos, que aliviam seu stress, espancando seus dóceis animais de estimação. Isso não para por aí! Pois, além de espancá-los até a morte, eles o deixam a relento na rua, todo machucados.
A cena de harmonia que os cães e seus donos estavam protagonizando, naquele momento, estava me deixando muito contente. Mas, ver fezes de cachorro, espalhadas pelo Calçadão, fez a alegria de antes, acabar. Para piorar a situação, o cheiro ‘daquelas coisas fedidas’ estava infestando aquele belo lugar de moscas varejeiras.
Acredito que, por causa da vida corrida dos dias de hoje, você, talvez, nem perceba ou não se importe em ver cocôs espalhados pela rua. Entendo sua falta de atenção e não o julgo, caro leitor.
Comigo a coisa era diferente! Me importava tanto com cocôs espalhados pelo chão que, meus olhos, no instante que os via, começavam a fiscalizar o porquê das pessoas deixarem ‘eles’ emporcalharem ruas, praças, parques... etc. Pense comigo: se você paga impostos, tem direito de andar em uma rua limpa, sem cocôs de cachorro que, além de irritá-lo, deixam seu calçado todo sujo e fedido, depois de pisá-los?
Caro leitor, me desculpe pela pergunta paranóica que acabei de te fazer. Talvez você me ache maluco, mas pode ficar sossegado. Tudo tem uma explicação! Essa paranóia deve-se ao fato de eu ter sido criado, pelo meu pai, com mania de limpeza. Acho que, por ter sido criado assim, perceber ‘aquelas coisas’ espalhadas pelo Calçadão de uma das mais famosas praias do Brasil, não era uma coisa nada agradável de se ver.
Se vê-los já era uma tortura, caro leitor, imagine senti-los? Infelizmente, aqueles cocôs de cachorros fediam tanto que não demorou muito para eu senti-los. Acredito que, naquele momento, até um indivíduo com nariz entupido conseguiria senti-los. O Calçadão, por causa daquelas coisas roliças e marrons, estava cheirando tão mal que eu não conseguia mais ficar sobre ele. Por este motivo, paro imediatamente de correr e vou a um lugar que não cheire tão mal.
O lugar escolhido por mim foi a mesma barraca de água-de-coco que a velhinha, do enorme guarda-chuva, estava há pouco tempo atrás. Para chegar até a barraca, localizada na praia, eu, primeiramente, tinha que sair do Calçadão e depois dar alguns passos pelas areias da praia de Copacabana. Após percorrer este caminho, chego ao meu destino.
Diante da barraca, percebo que, anexada a ela, estava uma pequena lousa, onde o nome dos produtos que vendiam lá e seus preços estavam escritos em giz. Lendo os produtos e seus preços, noto que acima de água-de-coco estava a palavra promoção. Uma coisa mais que normal, já que era uma barraca que vendia água-de-coco. Abaixo de água-de-coco estava uma palavra que eu adorei ler: garapa. Fiquei feliz em ler esta palavra, por que garapa – ou cana-de-açúcar em outras regiões -, era uma bebida muito apreciada por mim e saber que aquele estabelecimento SOMBRA FRESCA a vendia também na promoção, fez minha alegria de antes voltar à tona.
Querendo aproveitar a promoção, peço um copo de 500 ml ao vendedor. Após alguns minutos de preparo, a garapa estava pronta. Pago um real pela bebida – nada cara, por sinal – e me sento em um banco de praça com visão para o Calçadão. Escolho este banco com visão privilegiada, por que queria observar as pessoas e seus cães que passavam por ali.
Enquanto tomo garapa, eu observo os donos de cachorros – inclusive as madames e os surfistas, já citados aqui antes – e, infelizmente, notá-los me fez entender o porquê do Calçadão estar cheirando tão mal. Mesmo com uma enorme placa dizendo: “RECOLHA AS FEZES DE SEU CÃO”, a maioria das pessoas não trazia consigo, pelo menos, um saco plástico de supermercado para recolhê-las.
Honestamente, ver estas pessoas – desculpe a forma que vou dizer isso – porcas me deixou bastante chateado. Mas, como não podia fazer nada, decidi deixar para lá esses donos e continuei a tomar a garapa.
Com o fim da garapa, volto a correr. Quer dizer, antes de fazer isso, jogo o copo de plástico, onde estava a bebida, na lixeira. Após salvar o planeta, o jovem herói volta a se exercitar e enquanto corria, algumas pessoas passavam por mim: idosos ranzinzas, belos jovens, crianças alegres, lindas gestantes, pais e mães zelosos, irmãos serelepes, filhos travessos, avós fofos, pessoas alegres, pessoas pensativas, brancos, negros, gringos,... todos eles, fazendo o que todo ser humano gosta: aproveitando mais uma dia na Terra.
A corrida é novamente interrompida. Graças a uma forte dor, que comecei a sentir, na lateral do meu tórax. Esta dor, além de incomodar bastante, estava me fazendo ofegar.
Para parar a dor, faço uma coisa que inventei na infância e que sempre dava resultado: ficar de coque. Fico de coque e, mais uma vez, isso dá resultado. Por que, ao ficar nessa posição, a dor torácica começava a diminuir. Com a diminuição da dor, volto a respirar sem dificuldades. Mas, isso não ia parar por aí! Por que, repentinamente, minha garganta começou a roçar e essa ‘coceira’ repentina me causa um acesso de tosse. Como estava de coque, me levanto rapidamente para não engasgar. Estando de pé, a tosse – graças a DEUS – para.  Todos os sintomas citados acima eram causados pela asma, que como uma maldição, me acompanhava desde a infância. Ela se manifestava, todas as vezes que fazia exercícios. 
O receio de todos aqueles sintomas voltarem, me faz tomar uma decisão: parar de correr e descansar um pouco. Mas, naquele momento, não podia fazer isso. Por que os bancos do Calçadão estavam todos ocupados. Como não tinha remédio, começo a procurar outro lugar para me sentar. Depois de alguns segundos procurando, acho o melhor lugar para me sentar: uma mureta.
Você, depois de ler esta última frase, deve estar me achando um exagerado e queira me dizer isso: “Grande coisa achar uma mureta, em qualquer lugar no mundo existe uma mureta...” Entendo sua colocação, amigo que lê este livro! Mas, aquela coisa pintada com tinta branca, que separava a o Calçadão da praia de Copacabana, não era uma mureta qualquer. Para mim, sentar naquele lugar era um privilégio... melhor dizendo... era um presente que DEUS, tinha me dado naquele momento: observar a beleza paradisíaca daquele lugar.
Como a mureta estava próxima a mim, não foi preciso dar muitos passos para chegar até ela. Após mexer meus pés por cinco vezes, me sento na mureta e recebo o presente de DEUS que citei no parágrafo anterior – observar a beleza paradisíaca daquele lugar.
Naquele fatídico dia, havia uma coisa diferente na praia de Copacabana, que estava a deixando mais bonita que o habitual. Uma coisa que você, homem que me lê este livro, vai gostar de saber o que é...
Imagine comigo, amigo leitor! Um grupo de mulheres, do tipo modelo, vestido biquínis fio-dental, de todos os tipos e de todas as raças! Todas essas meninas, deitadas sobre a areia, embelezando mais a sempre linda praia de Copacabana! Meu DEUS! Era tanta beleza junta, que ficava difícil escolher para quem olhar. Neste grupo de meninas estavam morenas bronzeadas, loiras esculturais, ruivas delicadas, mulatas estonteantes, belas japonesas... Homem que me lê este livro, isso ainda não acabou! Algumas daquelas lindas meninas, querendo bronzear todo o corpo, faziam ‘topless’.
Todo homem que é homem e que vai a praia, gosta de ver garotas fazendo topless. Foi por isso que, naquele instante, os homens que passaram por lá, começaram assoviar e gritar elogios para aquelas belas meninas. Eram elogios que começavam com: ‘lindas’, ‘maravilhosas’, ‘gostosas’; e terminavam com... – melhor parar por aqui! Vai que você, que me lê, é mulher e se sinta ofendida ao ler palavras de baixo calão.
Aqueles homens não foram os únicos a ficarem ‘felizes’ ao ver mulheres sem a parte de cima do biquíni. Confesso que também fiquei muito ‘alegrinho’ ao vê-las. Tanto que um pequeno volume começava a aparecer no meu short.
Por ainda ser tímido, não queria mostrar minha excitação para todo mundo. Por isso, resolvo olhar para outro lugar. De preferência, um lugar que não tenha mulheres tão tentadoras! Isso dá resultado! Por que ao fazer isso, o volume do meu short aos poucos ia diminuindo.
Além de ajudar a diminuir o volume do short, olhar para outro lugar me faz encontrar um grupo de famílias muito comum em todas as praias: os banhistas. Como eles eram tantos, observá-los me deixou com muita preguiça. Para acabar com a preguiça, começo a observar somente as famílias que tinham crianças pequenas. Escolhi fazer isso, por que, mesmo não tendo filhos, eu adorava crianças pequenas!
Caro leitor, eu adorava crianças pequenas, por que ficava encantado com a forma divertida que elas descobriam a vida. Acho que para todos os pequeninos, a vida é uma eterna brincadeira! Ver crianças pequenas me deixava tão feliz que, a vontade de ser pai surgia imediatamente.
A maioria das crianças, naquele momento, brincava na praia: algumas construíam castelos de areias e outras estavam à beira-mar. Todas, obviamente, acompanhadas por seus pais.
Toda aquela cena familiar, que acontecia na praia, estava me fazendo recordar a minha infância. Mas, um ruído alto e repentino me faz retornar ao presente.
Embora este ruído tenha atrapalhado minha ida ao passado, fico curioso em saber de onde ele vinha. Por isso, começo a verificar todos os cantos da praia. Porém, só fico sabendo de onde este som repentino – bem parecido com o urro de comemoração – vinha quando o ouço novamente. Pois, no momento que o barulho alto volta a acontecer, meus olhos cruzam alguns metros da praia e encontram um pequeno grupo de pessoas jogando futevôlei. Infelizmente, todos aqueles jogadores eram homens.
Apesar de todos eles serem homens, decido assistir o jogo. Ao fazer isso, percebo que, além de ‘cuecas’, eles eram... – desculpe o que vou dizer a seguir, homem que me lê este livro! – bonitos e musculosos. Confesso que senti um pouco de inveja ao notar essas duas características deles. Mesmo sentindo inveja deles, perceber essas duas coisas me fez deduzir uma coisa: eles eram modelos.
Desde pequeno sempre fui uma pessoa curiosa – não intrometida, como a maioria das pessoas é – em saber sobre as coisas que aconteciam ao meu redor. Por ser deste jeito, eu queria saber qual era o motivo daqueles bonitos e musculosos homens – Droga! Eu disse de novo! – estarem jogando futevôlei naquela manhã dominical.
Para saber o porquê de todos eles estarem ali, começo a verificar o lugar de onde o jogo acontecia. Fazer isso por alguns segundos me faz encontrar uma fina e colorida placa de publicidade. Este objeto metálico era usado para separar o jogo da arquibancada. Quando leio o conteúdo escrito na placa, eu, finalmente, entendo o motivo pelo qual tudo acontecia naquele momento:
 “2º JOGO BENEFICIENTE DE MODELOS NA PRAIA DE COPACABANA”
Além de confirmar o porquê de todos estarem ali, o conteúdo escrito na placa, me ajuda, a saber, qual era a profissão deles. O melhor de toda esta situação é que minha dedução estava mais uma vez certa.
Com tudo já confirmado, volto a prestar atenção no jogo de futevôlei. Quer dizer, volto a assistir ao jogo por poucos segundos, por que, mais uma vez, um som repentino toma a minha atenção. Mas, diferente do ruído anterior, este é rapidamente identificado por mim.
No momento em que o ruído acontecia, meus grandes olhos castanhos já estavam em cima de sua dona. O som – só para constar, bastante ensurdecedor – era o grito histérico de uma adolescente gordinha. Graças a sua condição física, não foi difícil identificar a única pessoa fofinha da arquibancada.
Durante o jogo, um dos modelos faz um ponto de saque. Após o ponto, o rapaz bonito – falei de novo! Eca! – comemora soltando um urro de alegria. Ao vê-lo fazer isso, a adolescente fofinha volta a gritar. Caro leitor, infelizmente, o barulho iria piorar! Por que próximo a garota, havia mais adolescentes que, seguindo o exemplo de sua colega, começam a gritar histericamente. O som era tão ensurdecedor que, ao ouvir os gritos, meus ouvidos começaram a doer instantaneamente.
Além dos gritos histéricos, os modelos eram acompanhados por flashes de luzes que saíam aos montes de celulares e máquinas fotográficas. Esses flashes começavam a brilhar, quando algum modelo fazia um ponto ou simplesmente segurava a bola. Mesmo com toda essa muvuca, retorno a assistir ao jogo.
Ao assistir o jogo novamente, percebo que, surpreendentemente, aqueles homens sabiam controlar bem a pelota. Esta habilidade deixava o jogo bem interessante e bastante disputado! Para se ter uma idéia disso, o placar, naquele momento, estava vinte e dois a vinte e um, com o último ponto sendo disputado por um interminável rali. Mesmo o jogo estando bom, infelizmente, tinha que volta a correr.
Ordens da Doutora Paula Toledo! Que, além de controlar o que posso e não posso comer com uma enorme lista – como não sou de ferro, às vezes seguir esta lista a risca ficava cada vez mais difícil -, me receitou exercícios três vezes por semana, pelo menos quinze minutos por dia – como eu era um homem ocupado, os exercícios eram feitos apenas uma vez por semana. Apesar de querer assistir muito ao jogo, tinha que voltar a me exercitar. Pensando na saúde e, principalmente, na manutenção do corpo, me levanto da mureta, meio que a contragosto, e retorno a correr. Porém, diferente de antes, desta vez, eu apenas caminho.
O calor carioca, além de judiar da minha pele, queimando-a, muitas vezes, me fazia passar mal. Para que isso não acontecesse na hora da corrida, usar roupas confortáveis era uma ótima solução. Por exemplo, naquele dia, eu vestia uma camiseta babylook branca, um short, parecido com o de jogador de futebol, preto e, para os pés, tênis marrom.
Fazer exercícios, além de ficar saudável e manter meu corpo, me ajudava também a esquecer os problemas. Sabe aqueles problemas muito comuns que qualquer ser humano tem em sua vida, caro leitor? Problemas como: crise financeira, doença na família, demissão no trabalho, amor não-correspondido, saudade de pessoas que não estão mais entre nós ou que saíram de nossas vidas, receio do futuro, etc. Que mesmo tentando esquecê-los, eles apareciam e cutucavam nossas mentes constantemente.
Sei o que é isso! Por que, enquanto eu caminhava sobre o Calçadão, os meus problemas estavam me deixando com o pensamento ‘longe’...
Mesmo estando com o pensamento longe, consigo perceber que, próximo a mim, passava uma garota bonita. Olho para ela.
Ao fazer isso, noto que a garota me dá repentinamente uma piscadela. Sua piscadela repentina me deixa tão surpreso que, instantaneamente, paro de caminhar.
Além de notar a piscadela que ela me deu, consigo reparar, mesmo que de relance, a roupa que a garota vestia: um biquíni azul-piscina, com uma tanga florida que cobria a parte de baixo do corpo dela. Pode ter certeza, amigo leitor, as surpresas não iam acabar somente em uma singela piscadela!
Todo macho que é macho olha para o corpo de uma mulher, quando ela passa próximo dele. Isso todo mundo sabe! Acho que nós fazemos isso, para verificar se esta mulher tem lindas pernas ou um belo bumbum. Após verificar isso, nós a classificamos como gostosa, gata, linda ou apenas ‘bonitinha’.
Para classificar esta garota, que acabei de ‘conhecer’, tinha que olhar seu corpo. Por este motivo, me viro. Quando me viro, ela me surpreende mais uma vez, por que estava diante dos meus olhos. Apesar de surpreso, resolvo fitá-la – claro que discretamente, por que não queria dar impressão de ser um tarado -, para verificar se ela tinha um corpo bonito.
Fitá-la, amigo que me lê este livro, me faz confirmar uma coisa: aquela menina tinha sim um corpo bem bonito. Se, neste momento, classificássemo-la, por exemplo, ela estaria em três categorias: ‘gostosa’, ‘gata’ e ‘linda’. A moça, por ter um corpo muito bonito, ficava muito atraente. Acredito que, por causa disso, muitos homens ficavam atraídos ao vê-la e isso não foi diferente comigo. Por que ver ‘tudo aquilo’, me deixou bastante atraído. Para piorar a situação, a garota, além de ter um corpo bonito, tinha rosto lindo. Duas qualidades que fariam qualquer homem não resistir a sua beleza. Foi por isso que, naquele momento, meus olhos não conseguiam sair de cima dela.
Anteriormente, meus olhos fitavam apenas seu belo corpo. Mas, ao saber que a moça tinha um lindo rosto, eles, subitamente, mudaram de direção. Porém, tentando mais uma vez me surpreender, ela me saúda:
- Olá! – o momento ‘olhar para o corpo dela’ é interrompido por causa da saudação.
Apesar de interrompido, respondo sua saudação com um simples:
- Oi.
Após a saudação, tomo atitude e tento beijar suas bochechas, aproximando minha cabeça até o rosto dela. A garota entende o gesto. Por que, aproxima seu rosto para perto de minha cabeça. Com nossos rostos próximos um do outro, beijo as maçãs do rosto dela por duas vezes – maneira que as pessoas desse estado usam para se cumprimentar.
Depois de nos saudarmos, continuo o papo da forma mais simples do mundo:
- Tudo bem com você?
- Estou ótima! Principalmente agora, que tenho um deus grego ao meu lado! – o r e o s carregados em seu sotaque me fazem confirmar que aquela moça era uma legitima carioca da gema.
Confirmado o estado de nascimento da menina, fico em silêncio. Fico quieto, após ouvir sua cantada, para não magoá-la. Mas, para ser sincero, naquele momento, queria dizer isso a ela: “Meu Deus, menina! Que cantadinha ruim!” – este é o tipo de cantada que muitos homens usam para ficar com uma garota na balada.
Como disse anteriormente, não queria magoá-la. Por isso, mesmo achando sua cantada ruim, dou um sorriso falso para ela.
Após fazer este movimento bucal falso para a garota, nenhum de nós dois diz ou faz alguma coisa. Somente a menina, acredito que querendo me ver melhor, retira os grandes óculos escuros que usava. Com a retirada dos óculos, consigo notar que dois pequeninos olhos pretos me devoravam.
Por causa da minha timidez, muitas vezes, os olhares de belas mulheres sempre me deixavam sem jeito. Porém, com a moça, a coisa era diferente! Para falar a verdade, seus olhares em mim, não estavam me deixando nem um pouco sem jeito. Gostava tanto dos seus olhares que, começo a retribuí-los. Ao retribuí-los, nós, naquele momento, estávamos nos entreolhando.
O clima de paquera estava tão forte naquele instante que, até um imbecil que passasse próximo de nós e nos visse, saberia que alguma coisa estava ‘rolando’ ali. Mas, mesmo gostando do que rolava naquele momento, vi uma coisa naquela garota, durante nossas olhadas, que começava a me preocupar. Acho que, pelas expressões que ela fazia, aquela bela menina estava sentindo alguma coisa por mim!
Acredito que, depois de escrever isso, você, cético leitor, não esta acreditando em mim e que me perguntar algo: “Como pode saber isso? Você nem a conhecia direito.” Está certo em dizer isso, amigo que me lê este livro! Eu realmente não conhecia esta moça. Mas, levando em conta minha vasta experiência como conselheiro amoroso, esta garota tinha expressões corporais que demonstravam bem o interesse ou, até pior, a paixão por mim.
No momento em que nos olhávamos, percebi que ela, repetidas vezes, mordiscava o lábio inferior. Além das mordiscadas no lábio, a moça, em alguns instantes, abaixava repentinamente a cabeça e olhava para o chão. Quando seus olhos voltavam a me observar, notei que, instantaneamente, suas bochechas estavam avermelhadas. – dois sinais típicos de pessoas tímidas.
Apesar de desconfiar do interesse da menina por mim, paro de pensar como conselheiro amoroso e volto a pensar como homem. Ao pensar assim, meus olhos retornam a prestar atenção no seu belo corpo. A primeira coisa que eles observam é a sua barriga sarada. Ao fitá-la, deduzo que aquela garota ia, poucas vezes, à academia. Por que em algumas partes de seu corpo – por exemplo, o rosto – ainda se via traços femininos.
Observar a barriga sarada dela, naquele momento, estava me deixando curioso em saber uma coisa: “será que a parte, coberta pela tanga florida, era parecida com sua barriga tanquinho?” Mesmo curioso em saber o que tinha por debaixo daquela tanga, não esperava que ela a tirasse. Por este motivo, botei minha imaginação para funcionar.
Infelizmente caro leitor, eu estava redondamente enganado! Por que, a menina, percebendo minhas fitadas, retirou aquele acessório sensualmente. Ao retirá-lo dessa forma, a moça, mais uma vez, me deixa – adivinhe? – tão sem jeito que, imediatamente, paro de olhar paro o seu corpo.
Depois de alguns segundos, a vergonha – graças a Deus! – passa. Estando já bem, retorno a admirar seu belíssimo corpo.
Sem a tanga, eu posso finalmente matar a minha curiosidade e saber se a parte, coberta pelo acessório é parecida com sua barriga tanquinho. Verificá-la, me faz confirmar que, para a minha felicidade, a parte, coberta pela tanga, era tão malhada como a maioria de seu belo corpo. Principalmente suas pernas, que de tão torneadas, pareciam ‘dois troncos de árvores’. Acredito que se você as olhasse pela primeira vez, amigo leitor, acharia que esta garota poderia ser uma bailarina de grupo de axé ou, até melhor, uma ginasta olímpica.
Para ser honesto, admirar o corpo daquela moça estava me deixando muito excitado. Estava tão excitado que, o pequeno volume de antes, começava a aparecer novamente no meu short. Mesmo excitado, continuo a fitá-la.
Naquele momento, meus olhos fitavam a parte de cima de seu corpo. Primeiramente, eles começam a observar seus pequeninos seios. Eu confesso: observá-los estava me deixando completamente encantado! Por que aquelas duas perfeições redondinhas contornavam graciosamente o seu biquíni.
Além dos seus belos seios, havia outra coisa em seu corpo que ajudava a embelezá-lo: sua pele. Notei-a, ao olhar para seus braços e percebi que, além de lisa, ela tinha um ótimo bronzeado. Tanto que em alguns momentos, sua cútis brilhava quando os raios solares a iluminavam.
Subitamente, a menina da praia se vira e caminha em direção a – já citada aqui antes – mureta da praia. Por causa de sua atitude repentina, fitá-la, naquele momento, começava a ficar difícil. Apesar de não poder mais vê-la de perto, esta atitude dela me ajudou a perceber uma parte de seu corpo que eu não ainda tinha visto.
Se adivinhar, amigo leitor! Te dou um doce! Se palavras como bumbum ou bunda passaram pela sua cabeça, você acaba de ganhar um doce!
Caro leitor?! Meu Deus! Que bela bunda ela tem! Por que, além de grande, – bem parecida com o bumbum de uma dançarina de funk –, era durinha, acredito que por causa da malhação. Ver aquela bunda rebolando estava me deixando cada vez mais excitando. Tanto que o volume no short aumentava um pouco mais.
Apesar do volume no short, sinto que alguma coisa estava errada ali. De acordo com a minha experiência como conselheiro amoroso, é estranho, garotas aparentemente tímidas não se importarem em perceber que algum homem está olhando para o seu bumbum. Por que nesta situação, moças deste tipo têm duas reações: primeiro, elas, com medo de serem atacadas, apressariam o passo e segundo, incomodadas com nossos olhares para as suas nádegas, se virariam e nos mostrariam o dedo do meio.
A reação daquela menina foi diferente. Pois, ela simplesmente não fez nada, enquanto se dirigia para a mureta. Quando chegou ao seu destino, a garota apenas se sentou na mureta e observou a paisagem paradisíaca da praia de Copacabana.
Amigo que lê este livro, eu, sinceramente, não estava entendo bem a atitude repentina daquela menina. Por que, há pouco tempo atrás, tinha certeza absoluta que aquela moça estava interessada em mim.
Querendo entender esta situação inesperada, paro novamente de pensar como homem e retorno a pensar como conselheiro amoroso. Pensando como conselheiro, consigo entender finalmente o motivo da garota da praia ter aquela atitude tão repentina.
Acredito que ir inesperadamente a mureta foi a maneira que ela encontrou para me desprezar. Na cabeça dela, esta atitude repentina me faria cair aos seus pés. Longe de mim, ser uma pessoa arrogante, amigo leitor! Mas, esse jogo de sedução dela era muito amador e eu... era um profissional!
Mesmo achando o jogo de sedução dela amador, decido começar a jogá-lo. Por que, naquele momento, eu só queria continuar admirando seu belíssimo corpo. Mas, para fazer isso, só havia uma opção: fazê-la acreditar que eu estava caído a seus pés.
Para fazê-la acreditar nisso, eu tinha que tomar uma atitude. A primeira atitude que tomo é me aproximar-se dela. Ao me aproximar dela, consigo fazer uma coisa que estava querendo tanto: continuar admirando o seu belo e definido corpo.
Apesar de achá-la linda, eu ficava impressionado ao olhar para o seu corpo. Por que aquela menina não tinha nenhum defeito. Ela era perfeita da cabeça aos pés! Por este motivo, teve até um momento que pensei estar ao lado de um alienígena. Com medo de estar próximo de um extraterrestre, começo a verificar se a garota da praia tinha algum defeito em seu corpo.
Quando começo a verificar seu corpo, uma coisa me surpreende. Aquela linda criatura não tinha, nem no bumbum e nem nas pernas, a coisa que mais assusta e envergonha as mulheres hoje em dia: ‘celulite’.
O fato da moça não ter celulite deixa-me tão surpreso que, sem querer, um sorriso escapa dos meus lábios. Graças a Deus que foi somente um tímido sorriso! Vai que ela, me vendo sorrir sem motivo, ache que eu sou um bobo?
Infelizmente, caro leitor, querer não é poder! Além de notar o meu imperceptível sorriso, a menina o devolve da mesma forma. Acredito que fez isso, por achar que eu estava sendo gentil com ela.
Há poucos segundos atrás, achava que sorrir sem motivo foi a pior reação que tive na minha vida. Mas, depois de ver aquela perfeição bucal alinhada e branca na boca dela, minha opinião mudou completamente. Acho que se tivesse um concurso elegendo os sorrisos mais lindos do mundo, essa menina ganharia fácil o primeiro lugar.
Continuo fitando sua boca, mesmo estando embabascado. Ao continuar fazendo isso, noto que a moça, além do lindo sorriso, tinha uma coisa que me agradava muito: lábios carnudos – os tipos de lábios que mais gostava de beijar. Por este motivo, fiquei, naquele momento, bastante tentado a beijá-los.
Meu Deus do céu, amigo leitor! Aquela garota da praia era a perfeição em pessoa! Porém, mesmo achando-a perfeita, eu, infelizmente, não consegui me apaixonar. Apenas senti por ela, uma atração física.
Desde que comecei na profissão de conselheiro amoroso, crio regras para deixar minha vida organizada. Principalmente na vida amorosa. Por este motivo, criei duas regras que se aplicam na hora de conhecer mulheres:
Primeira regra – não levar mulheres para a cama no primeiro encontro (isso geralmente acontece no terceiro encontro).
Segunda regra – não fazer amor com uma mulher, só por achá-la gostosa.
Com estas duas regras, além de não complicar a minha vida complicada, eu não magoava ninguém. Estas regras só eram quebradas se alguma mulher conseguisse me fazer sentir alguma coisa, por ela ou por alguma característica dela.
Por exemplo: há um ano atrás, estava ficando com uma garota que conheci durante um trabalho. Uma jovem que, honestamente, não era linda e nem simpática. Porém, tinha uma coisa que fazia qualquer um se apaixonar por ela: seu beijo – nas vezes que fomos para a cama, eu só fui por causa dele. O trabalho acabou. Quando isso acontecia, mais uma regra – das minhas inúmeras regras – aparecia: “trabalho acabado, relacionamento terminado!” Uma das regras que mais seguia a risca. Primeiro, por que não gostava de ficar com uma pessoa por muito tempo e segundo, por causa da minha profissão, eu não tinha tempo de namorar ninguém. Seguindo minha regra, tentei terminar nosso relacionamento o mais rápido possível. Mas, quando tentava dizer a frase “quero terminar com você”, ela me beijava. Depois daquele beijo gostoso, já não sabia mais o que fazer ou o que dizer. Cansado desta interminável situação, tive uma idéia que acabaria de uma vez por todas com esse problema. Terminei nosso curto relacionamento, enviei a ela uma mensagem no celular, que dizia:
“Me perdoe! Mas quero terminar com você!”
Serafim
Resolvi não colocar o motivo, para não magoá-la mais. Mas, acredito que isso não tenha dado certo, por que, após enviar a mensagem para a moça do beijo – é melhor não revelar o seu nome –, nunca mais a vi. Para ser sincero, fiquei feliz em ter terminado aquele relacionamento, mas também fiquei triste por magoá-la. Aproveitando o assunto, se você estiver lendo este livro, eu, neste momento, quero te pedir perdão pelos dias e pelas noites que te fiz chorar.
Pensando em não magoar mais uma garota, espero a menina que conheci na praia dizer algo. Minha espera não demora muito tempo. Pois a carioca, depois de algum tempo quieta, volta a falar. Pelo seu olhar, sinto que mais uma cantada vinha por aí:
- Sou uma garota de sorte!
Apesar de saber que esta singela frase ia se transformar numa cantada, entro no seu jogo e pergunto o porquê dela ter dito isso:
- Eu sou muito sortuda! Por que estou do lado do cara mais lindo da Praia de Copacabana! Você!!! – até que esta cantada não foi ruim.
Mesmo achando a cantada boa, respondo-a usando a modéstia:
- Agradeço o elogio. Mas, acredito que você está enganada. Pelo contrário, eu não sou o cara mais lindo da Praia de Copacabana. Sabe do outro lado da praia – aponto o meu dedo indicador mostrando o lugar onde os modelos estavam – há alguns homens jogando futevôlei e pelos gritos que vem de lá, acho que eles estavam fazendo mais sucesso do que eu – termino a frase com um sorriso.
Como escrevi há alguns parágrafos atrás, embora tenha mudado tanto fisicamente e psicologicamente, ainda existia dentro de mim, o garoto tímido de Taubaté. Por causa dele, elogios femininos, muitas vezes, me deixavam sem jeito.
Imagino que após ler isso, você, amigo leitor, está curioso e quer me perguntar isso: “Essa timidez nunca te atrapalhou em nada?” Honestamente, caro leitor, na adolescência, ela me atrapalhava muito. Mas, com o passar do tempo, virou minha aliada e me ajudava em várias coisas. Principalmente, em não ficar arrogante, nas vezes que tinha sorte em ficar com mulheres bonitas.
Voltando a praia de Copacabana...
Ela não se importou nem um pouco com minha resposta modesta. Por que, após notar meu sorriso com clareamento dental, a garota da praia nem esperou dois minutos e já emendou mais uma cantada:
- Deus do céu! Que sorriso lindo! Fiquei até sem fala agora!
Respondi esta última cantada com um simples:
- Obrigado.
Após ouvir mais uma cantada dela, o menino tímido, que vivia dentro de mim, estava começando a ficar sem jeito. Não querendo ficar sem jeito, ele volta a ser homem e resolve ‘virar o jogo’. Fazendo isso, eu, além de fazê-la parar com as cantadas, ia saber o que aquela moça sentia por mim – amor, desejo, atração física, paixão momentânea... ou simplesmente estava sendo simpática comigo. Para saber o que aquela menina sentia por mim, disse uma cantada para ela que inventei na hora:
- Meu sorriso, nem em um milhão de anos, será tão belo e formoso como o teu. Por que teu sorriso é a imagem que qualquer homem desejaria ter cravada em sua mente e guardada no coração.
Depois de ouvir a cantada, as maçãs do rosto da garota da praia ficaram completamente avermelhadas. Além das bochechas vermelhas, a carioca não parava de dar sorrisinhos tímidos. Ela até tentou dizer alguma coisa, mas como estava sem jeito, só conseguiu proferir isso:
- Pa...Pa.. Para! Se... Se... Senão fi... fi... fico apa... pa... apaixonada!
A atitude daquela menina, após a cantada, me fez confirmar que aquela moça, apesar de linda, era tímida como eu. Confirmar isso não respondeu minha dúvida e eu continuei sem saber o que a garota da praia sentia por mim. Por isso, naquele momento, tinha que conversar com ela. Para poder fazer isso, tinha que fazê-la voltar ao normal. Por este motivo, pergunto o nome dela:
- Nossa! Como sou mal-educado! Não perguntei seu nome ainda. Qual... – perguntar o nome dela dá certo, pois as maçãs do rosto da carioca voltam ao normal.
Ela me interrompe, para me dizer qual era o seu nome:
- Luana.
Deixo a garota da praia sem jeito novamente, com uma brincadeira:
- Luana é um nome lindo... combina bem com a dona dele!
Após ouvir a brincadeira – que juro por Deus, foi sem intenção –, as maçãs do rosto dela voltam a ficar avermelhadas. Estando sem jeito, a garota da praia me pede uma coisa em tom de brincadeira:
- Para seu bobo! Assim você vai me deixar mais vermelha que um camarão! – para mostrar que estava brincando, a carioca sorri, depois de terminar a frase.
Imagino que você, depois de ler isso, não está acreditado muito em mim e quer me dizer algo: “Para de ser mentiroso menino! Você aproveitou a situação para passar uma cantada nela.” Apesar de você não acreditar em mim, caro leitor, fiz aquela brincadeira sem nenhuma má intenção. Se você quiser, posso fazer como nos tribunais, levantar a mão direita e prometer dizendo: “Palavra de Conselheiro Amoroso.”
Para ser honesto, Luana era um nome bonito e por isso, combinava bem com a garota da praia. Porém, achava que o som de sua pronúncia era forte. Por soar forte, eu prometo ao amigo que lê este livro que, se tiver uma filha, nunca colocarei este nome nela.
Mesmo prometendo isso a você, caro leitor, este nome só me deu sorte. Por que as Luanas, que fiquei, eram mulheres lindas e, principalmente, a maioria delas tinha uma simpatia de dar inveja a qualquer ser humano.
Apesar de o pedido ser em tom de brincadeira, o atendo. Atender ao pedido faz Luana – graças a Deus! – voltar ao normal. Por que suas bochechas já não estavam mais avermelhadas.
Com tudo normalizado, ela me pergunta:
- E o seu nome, gatinho? Qual é? – para não perder o costume, a garota da praia me canta mais uma vez.
Respondo a pergunta, apesar da cantada:
- Meu nome é Serafim.
- Ah!! Então, esse é o nome do cara mais lindo da praia de Copacabana?!
Diferentemente das anteriores, esta última cantada dela não me deixou nem um pouco sem jeito. Acho que comecei a ficar assim, depois de confirmar que aquela menina era tímida como eu. Estava ficando tão a vontade em ouvir suas cantadas, que continuei o assunto:
- O meu nome é... o nome de uma guarnição ou uma ordem de anjos...
Enquanto explicava a origem do meu nome, Luana me olhava com atenção. Só não sei amigo leitor, se essa atenção é para a minha explicação ou para o meu corpo. Mesmo não sabendo onde a atenção dela estava, continuo a falar.
Terminada a explicação, a garota da praia diz uma coisa que, honestamente, me deixa surpreso:
- Eu não disse que você é o cara mais lindo da praia?! Você é tão lindo que parece um anjo!
Além de surpreso, ouvir o que ela acabou de dizer, mostrou que eu estava enganado. Luana prestou tanta atenção na minha explicação que a usou para me dar uma cantada. Fiquei tão sem graça com esta situação que, não sabendo o motivo, começo a gargalhar. Me ver fazer isso, faz a carioca gargalhar também.
Esta situação inesperada e engraçada me faz confirmar outra coisa: aquela menina, além de linda, tinha bom humor. Bem diferente das meninas tapadas e ‘cabeças de azeitona’ que conheci durante a vida.
Após pararmos de gargalhar, continuo o papo, perguntando o que o nome dela queria dizer:
- E o seu nome? Quer dizer o quê?
- Não me lembro direito, mas... na última vez que vi na internet... ele significava, mais ou menos isso: lua que brilha lá no céu.
- Bonito isso.
Todas as vezes que eu falava alguma coisa, os olhos da garota estavam hipnotizados em mim – mais uma das reações que uma pessoa, interessada ou apaixonada por alguém, demonstra. Mesmo demonstrando esta reação, eu continuava sem saber o que Luana sentia por mim. Tentando mais uma vez saber isso, emendo mais uma cantada inventada na hora:
- Olhar para você é o mesmo que sentir o brilho da lua nas pupilas dos meus olhos. – caro leitor, esta foi uma bela cantada!
De tão sem jeito que ela estava, a carioca parecia estar próximo a uma fornalha. Por que, depois de ouvir minha cantada, aquela moça começou a se abanar, usando uma de suas mãos.
Apesar de conseguir deixar aquela menina sem jeito por três vezes, eu continuava sem saber o que ela sentia por mim. Para saber o que era, começo a analisá-la, usando minha experiência como conselheiro amoroso. Analisá-la, por alguns segundos, me faz finalmente saber o que aquela moça sentia por mim. Luana sentia uma das piores ‘doenças’ do amor: o famoso amor a primeira vista – ou como eu gosto de chamar – paixonite a primeira vista.
Amigo que lê este livro, para você ter uma idéia de como essa doença do amor age no coração de uma pessoa, imagine que sou homossexual. Imaginou? Agora, pense que eu, neste momento, vou dizer isso a ela. Pensou? Mas, mesmo que eu repetisse um milhão de vezes isso, o coração de Luana, tomado por esse amor a primeira vista, continuaria apaixonada por mim.
Como um expert em assuntos amorosos como eu, não conseguiu perceber isso antes. Até um cego perceberia que a garota da praia estava apaixonada por mim!
Mesmo confirmando o que aquela menina sentia por mim, eu não podia corresponder a este seu sentimento. Pois, como já citei aqui anteriormente, não fico com uma mulher só por achá-la gostosa. A pergunta que ela fez a seguir, me fez questionar a certeza que tinha antes:
- Amorzinho! Você trabalha em quê?!
Depois de ouvir sua pergunta, começo a questionar a certeza que tinha antes. Por que, de acordo com minha experiência, perguntas como essa são geralmente feitas por mulheres interesseiras. O tipo de mulher que, além dessa, trazia mais duas perguntas em seu questionário: qual carro você tem? – e – qual o valor de sua conta bancária? As respostas desse questionário confirmariam se você, amigo leitor, é um bom partido – financeiramente falando, é claro! – para esse tipo de moças. Se você, amigo que lê este livro, namora uma mulher dessas! Sinto muito te dizer isso, mas esta mocinha, que esta aí do seu lado, morando na sua casa, comendo da sua comida, viverá as suas custas até os seus últimos dias na Terra. Por isso, tenha cuidado com esse tipo de mulher!
Mesmo estando desconfiado dela, respondo sua pergunta:
- Sou um consultor.
- Em quê?!
- Em assuntos amorosos. Tipo um... conselheiro amoroso, sabe?
- Que lindo!!! Então... você ajuda pessoas com problemas no relacionamento?! – a desconfiança sobre a garota da praia termina, após notar que as duas perguntas feitas por mulheres interesseiras não apareceram a seguir.
- Sim. Mas não sou terapeuta de casais. Apenas ouço os problemas sentimentais das pessoas e procuro aconselhá-las da melhor maneira possível.
- Nossa! Como o seu trabalho é lindo!
Como já ouvi muitos elogios desse tipo sobre minha profissão. Não respondi ao elogio da carioca, apenas esperei ela continuar o papo. Nem precisei esperar muito tempo, pois Luana continuou nossa conversa, com uma indireta:
- Então... se você casar comigo, vou ser feliz a vida inteira! Por que terei como marido um expert em relacionamentos! – a garota da praia coloca a mão sobre a orelha e diz: - eu ouvi um sim?!
Após essa indireta... melhor dizendo... essa tentativa desesperadora de me conquistar, me sinto em uma sinuca de bico. De um lado, não queria magoá-la, dizendo que não gostava dela. Mas, por outro lado, se não dissesse nada, aquela moça acharia que eu estava dando esperanças a ela. Sem saber o que fazer, respondo sua indireta de forma hesitante:
- Pode ser que sim, poder ser que não... quem sabe, não é?
Notei que a expressão de Luana começou a mudar, depois de ouvir minha resposta. O rosto alegre de antes se transformou repentinamente em uma expressão triste, cabisbaixa e desanimada. Para animá-la de novo, continuo a conversa:
- E você trabalha em quê? – continuar a conversa dá resultado, por que a expressão alegre de antes volta a aparecer no rosto da garota da praia.
- Sou advogada civil.
Confesso que ouvir esta resposta me deixou surpreso. Por que aquela moça bem humorada, tímida e sorridente não se parecia nada com uma advogada civil. Quem olhasse para ela, acharia que Luana era uma promoter. Por achar isso, ficava difícil imaginar aquela menina defendendo um cliente no tribunal.
Apesar de ter essa opinião, resolvo não dizer nada. Por que não queria ser indelicado com a garota da praia e também imaginei que algum colega de escritório, talvez, já tenha dito isso a ela. Somente uso sua profissão, para fazer uma piada:
- O mais engraçado em nossas profissões, é que eu, uno as pessoas e você, as separa!
Minha piada foi tão boa que a garota da praia não parava de rir. Não foi só aquela moça que gostou da piada, eu, antes mesmo de contá-la, já estava rindo. Mas, ao ver a carioca rindo, meu pequeno riso se transformou em uma grande gargalhada.
Ficamos gargalhando por alguns segundos. Quando paramos, reparei que Luana procurava algo em sua bolsa – bolsa? Ela estava de bolsa? Fiquei tão encantado com o corpo dela que nem reparei no acessório pendurado em seu ombro.
Falando em não prestar atenção. Por ser homem, detesto dizer isso. Mas, nós, seres humanos pertencentes do sexo masculino, temos a péssima mania de não prestar atenção na mulher que vive ao nosso lado. Principalmente, nas vezes, que elas mudam o visual. Pense comigo, homem que lê este livro: Por que elas mudam de visual? Com certeza, em primeiro lugar, querem que nós, ‘adoráveis’ maridos, namorados ou ficantes, prestem, pelo menos, um pouquinho de atenção nelas. Em segundo lugar, nossas amadas mudam o visual para nos seduzir e assim, nos deixar excitados. Nós, infelizmente, não percebemos suas mudanças continuas de visual. Cansadas da nossa falta de atenção, nossas tristes e conformadas mulheres mudam de visual para uma disputa entre elas. Como se todas as mulheres estivessem em um concurso de miss universo.
Enquanto Luana procurava algo em sua bolsa, eu aproveitei para fitar aquele objeto que não tinha reparado antes. Ele era de tamanho médio, feito a lã e, sobre o tecido, havia bolinhas brancas que o enfeitavam. Enfeites que tinham tudo a ver com a personalidade carismática da carioca.
Após algumas remexidas na bolsa, a advogada, finalmente, achou o que procurava: um pequeno cartão. Depois de achá-lo, a garota da praia me entrega o pequeno objeto com grande empolgação. Até parecia que este singelo cartão foi o presente que ela deu para alguém na vida.
- Esse cartão é para você se lembrar de mim, quando se sentir sozinho! Ou, quem sabe... se mudar de idéia e aceitar a proposta que te fiz...
Tentando não magoá-la novamente, respondo o que ela acabou de dizer, com um aceno de cabeça.
Naquele momento, meus olhos estavam fitando o seu presente. Um objeto quadrangular, todo branco e feito de plástico, que continham dentro dele, letras em negrito. Era nessas letras em negrito, onde estavam escritos as informações mais importantes do cartão: como o seu nome – Luana Miranda – e sua profissão – advogada civil. Abaixo dessas informações estavam seus telefones de contato e o endereço do escritório onde ela trabalhava.
Depois de ler todas as informações contidas no cartão, eu a agradeço:
- Obrigado Luana! Adorei o presentinho. Prometo que vou guardá-lo com todo carinho.
- Que bom que você gostou!!! Ah! Antes que eu me esqueça... posso escrever uma coisa nele?
- Claro.
Aceito o pedido, sem perguntar o que era e devolvo o cartão a ela. Porém, antes de devolvê-lo, noto que, para a minha surpresa, a garota da praia já estava segurando uma caneta. Com o cartão nas mãos, Luana usava uma de suas coxas torneadas como apoio e começa a escrever.
Terminada a mensagem, a carioca, antes de me devolver o cartão, guarda sua caneta na bolsa. Com a caneta já na bolsa, ela me devolve o presente, dizendo:
- Espero que você goste da mensagem que escrevi para você!
Estava tão curioso, naquele momento, em saber o que Luana tinha escrito para mim que, não respondo o que ela tinha acabado de me dizer. Para matar a minha curiosidade, viro o cartão e leio a mensagem:
“Para o anjo mais lindo e fofo da praia de Copacabana”
Com carinho de sua Lua
Luana
Abaixo desta mensagem, estava um número de telefone, que deduzi ser o número do celular dela.
A mensagem de Luana foi tão bonitinha que, eu fiquei sem saber o que dizer para agradecê-la. Por ficar sem saber o que dizer, resolvi agradecer a mensagem da garota da praia com um beijo.
Quando meus lábios se aproximavam de uma de suas maçãs do rosto, a carioca, querendo me surpreender mais uma vez, vira subitamente o rosto. Se minha percepção não fosse rápida, nós nos beijaríamos na boca. Antes dos meus lábios se aproximarem dos dela, viro repentinamente o rosto e aquela menina beija uma de minhas bochechas.
Acredito que o ‘toco’, que acabei de dar em Luana, a tenha magoado. Tentando reparar isso, recompenso aquela moça dando-lhe mais dois beijos de brinde em suas maçãs do rosto – uma forma muito comum de se cumprimentar no Rio de Janeiro. Os dois beijos que dei em suas bochechas não ajudam e a garota da praia, magoada comigo, se levanta da mureta e vai embora sem me dar tchau.
Apesar de magoá-la, este toco até que teve um lado bom. Por que, enquanto ia embora, eu, pela última vez, podia ver seu belo bumbum. Um bumbum que, além de deixá-la gostosa, fazia-a ter um rebolado sensual.
Olhar o rebolado sensual da carioca por algum tempo, me fez perceber mais uma coisa em seu corpo: o cabelo. Acho que só consegui notá-lo por ser longo – sua ponta batia no cóccix dela. Além de longo, o cabelo da garota da praia era vermelho – quer dizer, pintado de vermelho – e, o principal, ele era encaracolado – o tipo de cabelo que mais me atraí em uma mulher.
Como escrevi aqui anteriormente, todos os olhares que lancei para o corpo de Luana foram totalmente discretos. Por que não queria dar impressão de tarado para ela. Mas, mesmo sendo o mais discreto possível, a carioca percebeu – sinceramente, não sei como conseguiu isso, estando de costas – minha fitada para o seu cabelo avermelhado.
Caro leitor, como elas conseguem perceber isso? Eu tenho uma teoria! Acredito que quando Deus criou as mulheres, colocou no cérebro dela, um tipo de radar. Todas as vezes que um homem olha para elas, este radar emite um sinal para o seu inconsciente, avisando-a. Infelizmente para mim, o radar de Luana a avisou. Por que a garota da praia, querendo mais uma vez me surpreender, se vira e me manda um beijo.
Fiquei tão sem jeito vendo ela me mandar um beijo – novidade! – que as maçãs do meu rosto ficaram como o cabelo dela: completamente avermelhadas.
Para a minha infelicidade, aquela menina percebeu que minhas bochechas estavam vermelhas. Mas, diferentemente de outras garotas que me achariam ridículo por ter aquela atitude, a carioca simplesmente sorriu para mim. Acredito que ela fez isso, por que achou esta minha última reação fofa. Porém, ver o sorriso dela, me deixa mais corado ainda.
Luana – Graças a Deus! – não vê meu rosto corado. Por que já tinha se virado e seguindo a direção da rua. Após dar alguns passos, a garota da praia desaparece no meio das pessoas, como um oásis desaparece no deserto.
Sem a carioca, minhas maçãs do rosto voltam à cor original. Estando já recuperado, meus olhos começam a olhar novamente o cartão, que ela tinha me presenteado. Olhá-lo, naquele momento, me faz refletir: “como é possível, aquela garota maravilhosa me dar tanto mole?”
Por ainda ser tímido, o fato de mulheres, como Luana, me cantarem continuava sendo tão estranho para mim que, ficava difícil acreditar. Tanto que, nas vezes que era cantado por uma garota bonita, o menino de Taubaté – citado aqui anteriormente – aparecia e tomava conta do meu corpo. Com ele, uma dúvida sempre surgia: “como aquele garoto magrelo, cabeçudo, nerd e tímido de Taubaté se tornou o cara mais assediado da praia de Copacabana?”
Não que eu seja um cara pegador, caro leitor! Mas, para ser sincero, já ouve episódios como este último, que acabei de viver com Luana, onde belíssimas mulheres me cantavam descaradamente. Apesar de serem belas, nunca dei esperanças a nenhuma delas.
Muitas mulheres me cantaram, mas só a garota da praia me fez sentir uma coisa. Uma coisa que eu nunca senti nos meus vinte e sete anos de vida. Mas, que se parecia muito com nostalgia ou saudade de alguma coisa. Por isso, começava a sentir uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo.
Esta sensação repentina fez meu cérebro começar a recordar memórias que estavam esquecidas por mim. Acho que por causa do meu trabalho movimentado como conselheiro amoroso. Estava tão interessado em recordar estas memórias antigas que, a manutenção do corpo fica, naquele momento, em segundo plano na minha lista de prioridades. Por este motivo, resolvo parar os exercícios.
Mesmo contrariando as ordens da nutricionista, me levanto da mureta e vou a pé para a casa. O caminho não era tão longe. Para se ter uma idéia, de onde eu estava, – Calçadão –, até a rua do meu prédio – Enrico Gaspar Dutra – era, mais ou menos, dois minutos caminhando.
A caminhada é rápida e, em menos de dois minutos, chego ao hotel três estrelas mais famoso do Rio de Janeiro: o Hotel Chateaubriand. Este lugar de tamanho médio tinha em seus doze andares, apartamentos espaçosos e arejados. Além disso, seus andares possuíam paredes brancas como o céu, que faziam seus moradores relaxar ao passarem próximo a elas. Outra coisa que os moradores gostavam eram as janelas de vidro. Elas eram tão modernas que deixavam o estilo clássico da fachada do hotel mais bonito.
Além de pensar na estrutura do hotel, os donos do lugar pensavam na sua história. Tanto que eles colocaram um livro aberto, próximo a recepção. Neste livro, estão as assinaturas de personalidades famosas que moraram lá, desde sua inauguração – vem me fazer uma visita que você vai conhecê-los, amigo que lê este livro!
Todas as vezes que entrava e saía do hotel, Benito, o porteiro boliviano de dia e a drag queen de noite, me cumprimentava. Não foi diferente dessa vez, por que quando entro no hotel, o porteiro me cumprimenta com um sorriso:
- ¡Buenos días, papá! ¿Cómo estás?
Eu odiava quando Benito me chamava assim! Talvez, alguma garota poderia me procurar e, me chamando assim, o porteiro, provavelmente, estragaria meu encontro com ela. Nunca se sabe! Vai que a moça, ao ouvir ele me chamar assim, pense que eu sou gay ou até pior, poderia achar que eu fosse namorado do boliviano.
Apesar de odiar o apelido, respondo seu cumprimento de maneira calma:
- ¡Buenos días, Benito! Estou bem e você? – mesmo respondendo seu cumprimento calmamente, não deixo de repreendê-lo. – Benito, já te disse! Não me chame de papá!
Após ouvir a repreensão, o porteiro fica cabisbaixo. Ele ficava assim, todas as vezes que eu o repreendia. Acho que por me considerar mais que um amigo, – não vá pensar besteira, caro leitor! – o boliviano não gostava de me desapontar.
Eu o compreendia, mesmo odiando este apelido. Chamar-me assim, era a forma que Benito usava para agradecer por tudo que fiz a ele, desde que chegou ao Brasil. Para você ter uma idéia, uma vez, eu fui a uma boate GLS só para assistir um show dele.
Arrependido por ter me chamado de papá, o boliviano pede-me desculpas:
- Me esqueci, Serafim! Você me perdoa? – o português dele estava melhorando, após dois anos morando no Brasil – Só queria saber se estás bien?
- Bueno, Benito! – para não matar a língua-mãe do porteiro, nossas conversas ainda tinham algumas palavras em espanhol – Tudo bem, eu te perdôo!
Antes que o boliviano falasse alguma coisa, tomei a palavra e perguntei se alguma correspondência tinha chegado para mim. Como não podia dizer nada, Benito respondeu minha pergunta com um aceno de cabeça.
Sei que fui indelicado, caro leitor! Mas, naquele momento, eu só queria subir para o meu apartamento e continuar relembrando minhas memórias. Além disso, imaginei que o porteiro ia começar a contar os seus casos amorosos.
Não que eu seja um cara contra os homossexuais, caro leitor! Mas, não é legal para qualquer heterossexual, que se preze imaginar dois homens se pegando. Além de me contar seus casos amorosos com detalhes, Benito era uma pessoa insegura. Por isso, quando finaliza de contar suas histórias, sempre me perguntava:
- O que eu faço?
Como não entendia nada sobre relacionamentos homossexuais, nunca respondia a esta pergunta.
Finalizo a conversa, me despedindo do meu amigo boliviano:
- Lo siento, pois tengo que ir a meu apartamento. Después nos hablamos. Hasta pronto!
Por ser um simples porteiro, Benito apenas me deu um tchau acenando com uma das mãos.
Depois de me despedir do boliviano, saio da recepção e cruzo, rapidamente, um pequeno saguão. Por estar com pressa de subir para o meu apartamento, vejo, de relance, samambaias adornando aquele lugar.
No meio daquele saguão, havia um enorme elevador. Do lado dele, estava um painel eletrônico com dois botões: no primeiro, tinha um desenho de uma seta para cima e no segundo, uma seta para baixo. Estando com pouca paciência, aperto os dois botões ao mesmo tempo.
Alguns segundos depois, o elevador – graças ao bom Deus! – chega e suas portas metalizadas se abrem. As portas abertas me possibilitam verificar se alguém estava dentro dele. Para a minha sorte, não havia ninguém lá, entro nele rapidamente, antes que suas portas se fechem.
Ao entrar no elevador, suas portas metalizadas se fecham e as luzes de seu interior começam a me iluminar. Além do seu interior, elas iluminavam um painel eletrônico grande, que ficava próximo a uma de suas portas metalizadas. Neste painel havia números de 1 a 12 – os números correspondentes aos andares deste prédio. Para chegar ao andar do meu apartamento, aperto o número 6 do painel. Após apertá-lo, o elevador, instantaneamente, começa a subir.
Enquanto subia, uma música instrumental começava a tocar. Uma música que, sinceramente, eu não sabia identificar. Mas, que se parecia muito com ‘Garota de Ipanema’.
Apesar da música instrumental, minha mente não parava de trabalhar. Ela continuava a relembrar os momentos de minha vida. Por exemplo: naquele momento, eu estava lembrando o dia que cheguei ao Rio de Janeiro – o começo de tudo na minha vitoriosa carreira como conselheiro amoroso.
Lembrar deste dia, me fez perceber uma coisa, caro leitor: como eu mudei tanto! Por isso, eu, naquele momento, estava pensando na mudança.


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