sábado, 27 de junho de 2015

ROTEIRO ALMEJADO!!!

Como vocês viram em dois meses de volta deste blog, eu escrevo histórias românticas e poemas depressivos. Mas para surpresa de todos, inclusive a minha, escrevi um roteiro de uma série de comédia de TV ano passado, após o término do LAÇOS DE CASAMENTO. Tentei mandar para algumas produtoras de TV, mas não obtive resposta alguma. Uma curiosidade este roteiro está na história "PEQUENA AJUDA", uma pequena metalinguagem que fiz. Com vocês, ELA AINDA ME MATA! Espero que deem boas risadas.

Episódio 1 – Piloto
Cena 1

Felipe, de terno e gravata, chega em casa, abre a porta e antes de fechá-la, dá uma respirada de desânimo. Uma voz na cozinha grita:
- Quem é?!
- Sou eu!
- Eu, quem?! É Deus me levando?!
- Por favor, né, mãe! Você acha que Deus vai entrar pra te levar pela porta da frente?! Sou eu! Felipe, o seu filho!
- Ah tá! Me desculpe!?
- Tudo bem! Onde você está?!
- Estou aqui, filho!
Após ouvir a voz, ele caminha até a cozinha. Chegando lá, vê sua mãe devorando um enorme sanduíche e a cumprimenta:
- Oi, mãe – ele dá um beijo no rosto dela.
- Oi – ela o responde de boca cheia.
Ao ver o enorme sanduíche que ela comia, Felipe a pergunta:
- Está gostoso?
- MARAVILHOSO! – ela dá outra mordida no sanduíche.
Seu filho a observa, esperando ela terminar o sanduiche. Demorou um tempo para que Dona Glorinha entendesse que Felipe queria conversar. Quando entendeu, sua mãe colocou o sanduíche no prato e pediu desculpas:
- Desculpa, filho? – ela mastiga rápido e limpa sua boca com um guardanapo de papel. – É que aqueles remédios pra emagrecer me deixam morta de fome.
- Tudo bem. Vou deixar você aí com seu sanduíche e vou tomar banho.
Felipe dá a volta e se encaminha para sair da cozinha. Mas quando dá o terceiro passo, Dona Glorinha, ao perceber que ele estava cabisbaixo, o chama:
- Venha aqui, senhor Felipe Aguiar de Camargo!
Seu filho volta e se aproxima da mesa da cozinha, dizendo, após dar duas respiradas de desânimo:
- O que foi, mãe?
- Filho, o que houve? Por que você está com essa carinha triste?
- Não é nada, mãe. Só estou cansado mesmo.
- Você quer enganar quem, garoto?! Te conheço desde que você saiu daqui! – ela dá um tapinha em sua barriga.
Antes de responder alguma coisa, Dona Glorinha o interrompe:
- Ah, já sei! Você levou toco de outra menina, não é? – ela diz isso de uma forma calma.
- Não, mãe! Não é isso.
- Arrá! Então tem alguma coisa? Eu sabia! – ela diz isso apontando com o dedo.
Cansado da pressão inquisitória da mãe, Felipe conta o que estava acontecendo com uma certa impaciência:
- Tá bom, Dona Glorinha! – ele senta na cadeira ao lado de sua mãe. – Vou te contar o que houve, tá bom?!
- Sim – ela abre um sorriso.
- Sabe o meu chefe?
- Aquele com nome de filósofo?
- Isso. O seu Aristóteles.
- Puta merda! Se eu tivesse esse nome, socava de porrada a cara do filho da mãe que me colocou ele.
Felipe não se importa com o comentário da mãe. Tanto que continua o assunto:
- Então, ele disse que por causa da inflação brasileira e a crise europeia tinha que fazer uns cortes no orçamento, reduzir os custos e blá! blá! blá!
- Hum, entendi! Aí, meu DEUS! Coisa de chefe, gostar de enrolar pra dar uma notícia, hein? – ela faz uma cara de tédio. – Pra resumir, o que o filósofo... quer dizer... o seu chefe te disse?
- Ele me disse que vai me rebaixar de cargo – a cara de desânimo volta ao rosto de Felipe. – Eu que era coordenador, virarei analista de marketing – ele põe as mãos no rosto e começa a chorar.
Dona Glorinha vendo seu filho chorar, o consola dizendo:
- Ó meu bebê! Não chora! Vem aqui, vem? – ela coloca a cabeça dele em seu peito.
Mesmo percebendo que seu filho chorava, Dona Glorinha, tentando entender alguma coisa, o pergunta calmamente:
- Filho? Sei que não está bem. Mas que raios é tudo isso que você falou?! – ela diz isso com um tom de voz alto. – Coordenador? Analista de marketing? Pelo amor de DEUS, né filho! Eu não falo essa língua de vocês aí? – seu tom de voz agora é de desdenho. – O “marketês”.
Por estar desanimado, Felipe não se importa com o comentário de sua mãe. Ele tira a cabeça do peito dela, enxuga as lágrimas com as mãos e continua contando:
- O problema mãe não é mudar de cargo. O problema é que vão reduzir o meu salário – novamente, ele fica desolado.
Ao ouvir ‘reduzir o meu salário’, Dona Glorinha fica tão chocada que o pergunta nervosa:
- Pelo amor de Deus! De quanto eles vão reduzir o seu salário?!
Como estava com medo de deixar sua mãe mais nervosa ainda, Felipe tenta dar a notícia ruim de uma maneira suave:
- Bem... só um pouquinho. De quase dez mil, eu vou ganhar... – ele dá uma limpada na garganta - ...cinco mil.
Depois de ouvir o valor, Dona Glorinha fica tão nervosa que o pergunta gritando:
- O que?! Você faz cinco anos de uma faculdade cara pra receber só cinco mil?!
Felipe, não sabendo o que responder, dá uma engolida seca e sua mãe continua esbravejando:
- Tudo isso é culpa daquele filósofo maldito! Ele quer nos falir, só pode ser isso! Reduzir o seu salário, só por que o Brasil e os países européuticos estão mal das pernas?! Isso é desculpa esfarrapada pra aquele filho da mãe te roubar!
Vendo que sua mãe estava nervosa, Felipe pede:
- Mãe se acalma, pelo amor de DEUS! Você vai ter um piri-paque!
- Bom que eu tenha mesmo, pra não socar a cara desse filósofo safado! – ela dá um murro na mesa.
Para acalmar sua mãe, Felipe dá o enorme sanduíche que estava na mesa a ela:
- Toma mãe! Come!
Após pegá-lo, Dona Glorinha o mastiga com raiva, como se fosse um animal. Felipe, com medo da mãe, saí de fininho da cozinha.

Cena 2
Felipe volta à cozinha vestindo um roupão e com o cabelo molhado.
Dona Glorinha, quando o vê, reclama:
- Nossa filho! Demorou no chuveiro, hein?
- Desculpa mãe? É que eu estava tão estressado com essa notícia que resolvi relaxar.
Ao ouvir isso, Dona Glorinha faz uma cara de decepção e exorta o filho:
- Pelo amor de Deus, Lipe! Quantas vezes já te disse pra parar de jogar meus netos no ralo?!
- Mãe! Em primeiro lugar pare de me chamar de Lipe! Não sou mais criança, tenho quase 25 anos. E em segundo lugar, eu não estava fazendo isso que você falou aí.
- Tá bom. Vou fingir que acredito. – ela dá um sorriso malicioso ao filho.
Tentando não ficar constrangido com os comentários, Felipe muda de assunto. Ao ver na mesa muitos papéis em volta de sua mãe, ele a pergunta:
- Mãe, o que são esses papéis aí?
- São as contas. Aqui está tudo o que você gasta em casa – ela põe o lápis sobre os papéis.
- Ah tá – Como tinha trancado o quarto para tomar banho, surge uma dúvida em sua cabeça. – Mãe, como a senhora conseguiu pegar todos esses papéis se a porta do meu quarto estava trancada?
- Ai filho! – ela sorri. – Você relaxa tanto que nem percebe as coisas que acontecem ao seu redor.
Felipe fica sem saber o que dizer. Dona Glorinha, ao perceber isso, muda de assunto:
- Bem... como vão reduzir seu salário, resolvi pegar suas contas e verificar nossas despesas, entende?
- Entendo, mãe. Sei que a senhora quer ajudar, mas isso é trabalho do ‘Mão de Vaca’?
- Quem?
- O ‘Mão de Vaca’, meu contador.
- E este sujeito com apelido engraçado tem nome e sobrenome?
- Acho que sim. Mas, nesse momento, não lembro qual é.
Dona Glorinha começa a ficar nervosa, após ouvir isso. Tanto que exorta seu filho:
- Filho, pelo amor de Deus! Como você confia o nosso dinheiro a uma pessoa que você nem lembra o nome?!
- Mãe, eu não me lembro do nome dele, mas sei de quem ele é amigo. Lembra do Pedro, meu ex-colega de faculdade? Então, os dois eram amigos.
- O Pedro Raposo?
- Isso.
- Não foi esse boçal que te fez passar vergonha puxando sua calça na frente da faculdade inteira?
- É – ele responde meio desanimado a pergunta, pois recorda rapidamente o episódio.
- Esse seu contador tem grandes amigos, hein? – ela é irônica.
- Concordo com a senhora que o Pedro foi um escroto comigo na faculdade. Mas o amigo dele é legal! Ponho minha mão no fogo pelo ‘Mão de Vaca’!
- Você põe mesmo?
- Sim – ele responde a pergunta confiantemente.
- Bem... – ela olha para as anotações no caderno – e se eu dissesse que tem um rombo de 2 mil reais no seu salário do mês passado? Você continuaria pondo a mão no fogo por ele?
- O que?! Como assim?! – um tom de surpresa aparece em sua voz.
Dona Glorinha responde a pergunta com um ar de superioridade:
- Simples. Em meus anos de contadora...
Felipe a interrompe para colocar sua mãe ‘de volta a realidade’:
- Mãe, só pra lembrar. A senhora nunca foi contadora, só trabalhou como tesoureira em uma escola de informática.
- E eu não trabalhava com dinheiro lá? – Felipe responde a pergunta fazendo um aceno afirmativo com a cabeça. – Então... é tudo a mesma coisa!
- Tudo bem, mãe! Pode continuar a falar, não vou mais te interromper, tá?
- Obrigado filho! – ela sorri. – Bem... como falava antes, eu somei o valor das contas do mês passado e dividi pelo salário que você ganhava. E adivinha? Não bateu! Ficaram faltando dois mil – enquanto falava, ela ia mostrando ao filho o caderno onde tinha feito as contas.
Após conferir duas vezes as contas que sua mãe tinha feito, Felipe começou a esbravejar:
- Não acredito, mãe! Eu confiei cegamente naquele desgraçado por 5 anos e só descubro hoje que ele está me roubando! Como eu sou um burro! – ele, após dizer isso, dá repetidos tapas na testa.
Mesmo vendo a aflição do filho, Dona Glorinha é sincera:
- Eu não queria dizer isso, mas... é sim. É filho – ela põe a mãe no ombro do filho. – Seu amigo ‘Mão de Vaca’ virou ‘Mão de Rato’!
Como estava nervoso, Felipe não ouviu o que sua mãe disse. Ele, apenas, continuou dando tapas em sua testa e repetindo:
- Como eu sou burro! Como eu sou burro! Como eu...
Dona Glorinha, ao vê-lo assim, segura sua mãe e o exorta:
- Não adianta ficar se lamentando! Você tem que resolver isso!
- Como mãe? – a voz dele é de desespero.
- Ora essa, Felipe! Vai até o trabalho dele e demite aquele ladrão! – ela continua usando a voz autoritária.
Vendo que sua mãe começava a ficar nervosa, Felipe, com muito medo, a avisa:
- Mas mãe, tem um probleminha?
- Aí, meu DEUS, filho! – ela se prepara para ouvir mais uma burrada do filho dando uma respirada. – O que você fez dessa vez, filho?
- Nossa, mãe! Eu não fiz nada! É que... – ele dá uma engolida em seco – eu não sei onde ele trabalha.
Dona Glorinha, depois de ouvir isso, fica extremamente nervosa. Para não bater no filho, ela, tentando se acalmar, se levanta da cadeira e começa a andar pela cozinha.
Felipe, ao ver sua mãe assim, tenta avisá-la com uma voz trêmula:
- Mas eu tenho o cartão dele. Lá deve ter os números de telefone. A senhora quer que eu pegue?
Após ouvir isso, Dona Glorinha para de andar e exorta o filho:
- O que você está esperando?! Seu lerdinho! – ela dá um tapa forte na cabeça do filho.
Depois de receber o tapa, Felipe resmunga:
- Aí mãe! Doeu! – ele acaricia o local do tapa. – Vou pegar o cartão, tá?
Ele se levanta e sai da cozinha.

Cena 3
Os dois estão na sala. Felipe está sentado na poltrona com o telefone e o cartão nas mãos. Antes de ligar, Dona Glorinha, atrás dele e com sua mão no ombro, o incentiva:
- Vamos filho! Seja duro com o ladrão! Nada de ser banana, hein?
- Tá bom, mãe – ele aperta rapidamente os números de seu telefone.
Felipe, enquanto espera alguém atender a ligação, fica com cara de mal. Quando alguém atende à ligação, ele, com uma voz brava, diz:
- Alô! Aqui é Felipe Aguiar de Camargo!
Vendo que seu filho estava sendo duro ao telefone, Dona Glorinha o elogia:
- Isso aí, filho! Dá uma dura nele! – ela dá uma batidinha no ombro dele.
- Eu quero falar com o... – como queria lembrar do nome de seu contador, ele abandona a voz brava. – Por favor, moça! Como é o nome do seu chefe?
Dona Glorinha olha para cima e reclama:
- Meu Deus! Onde foi que eu errei?
- Wedsney? Ah tá, obrigado.
Depois de saber o nome verdadeiro do contador de seu filho, Dona Glorinha comenta:
- Nossa! Com um nome feio desses, acho melhor deixar o apelido de ‘Mão de Vaca’ mesmo.
- Você já vai passar pra ele? Sim. Tá bom, muito obrigado, viu? – ele é simpático com a moça do outro lado da linha.
Enquanto observava seu filho esperando, Dona Glorinha, achando que ele ia amarelar, o orienta:
- Seja forte agora, filho!
Pouco tempo depois, seu contador aparece na linha e Felipe, ao ouvir sua voz, começa a exortá-lo usando uma voz brava:
- Amigo é o caramba! Eu não tenho amigos ladrões!
Dona Glorinha, vendo-o desse jeito, o elogia:
- Isso aí, filho! Dá uma dura nele!
- O que aconteceu?! Você me rouba 2 mil reais e me pergunta o que aconteceu?!
Dona Glorinha, inconformada com o que acabou de escutar, comenta:
- Meu Deus! Que sujeito cínico!
- Claro que tenho provas! Minha mãe fez a soma de todas as minhas contas e dividiu pelo meu salário! E adivinha, seu larápio?! Falta dois mil reais pra mim! Como você me explica isso, hein?!
Dona Glorinha faz um sinal para o filho continuar sendo duro com o seu contador.
- O que? Sério? – o tom de voz bravo dele, repentinamente, desaparece. – Você pegou pra ajudar sua vó doente?
Ao ver que seu filho começava a amarelar, Dona Glorinha dá um tapa no braço dele e o exorta:
- Para de ser burro, filho! – Felipe, depois de receber o tapa, põe a mão sobre a parte que fala do telefone para prestar atenção em sua mãe. – Esta história da avó morta é mais velha que eu!
- Mas mãe e se for verdade? Eu estarei tirando os remédios da avó dele! – ele faz uma expressão de culpa.
Tentando convencer que o filho estava sendo enganado, Dona Glorinha o ameaça:
- Demite ele, se não vou dar mais um tapa em sua cabeça, hein?!
Com medo de levar outro dolorido tapa de sua mãe, Felipe, tira a mão que tapava o telefone e, com desânimo, dá a notícia ao seu contador:
- Me desculpe ‘Mão de Vaca’? Mas você está demitido!
Depois de dar a notícia, Felipe repentinamente se silencia, mas no seu rosto há uma expressão de medo. Após alguns segundos assim, ele desliga o telefone e sua mãe, curiosa, o pergunta:
- E aí? O que ele disse, depois que você o demitiu?
Felipe respondeu à pergunta com uma expressão preocupada:
- Bem... ele me disse que vai me processar. Nesse processo, ele vai me tirar tudo, até as minhas bolas!
Dona Glorinha, depois de saber disso, comenta:
- Engraçado isso! – ela sorri. – Ele te rouba e é você que perde as bolas?
Tentando esquecer a ameaça de seu contador, Felipe muda de assunto:
- E as contas, mãe? Como ficarão agora que reduziram meu salário?
- Foi bom você ter perguntado, filho! - ela se senta no sofá e coloca seu caderno de anotações na mesinha. – Bom... enquanto você pegava o cartão do seu ex-contador, eu anotei algumas despesas que, para mim, parecem ser desnecessárias.
- E quais seriam essas despesas desnecessárias?
- Primeiro, deveríamos trocar o pacote turbo pelo básico da TV a cabo. Depois...
Felipe, ao ouvir essa sugestão, reclama:
- Mas mãe, o pacote básico não tem nada! Só tem o canal religioso, os de filmes velhos de caubói, os de anúncio e, o pior de todos eles, o canal agropecuário! E quando eu quiser relaxar?
- Eu já sei com o que você quer relaxar, seu safado! – ela dá um tapa no braço dele. – Com o canal pornô, não é?
- É – ele responde a pergunta meio constrangido.
- Vamos trocá-la amanhã!
Felipe encosta sua cabeça na poltrona e desanimado a pergunta:
- O que mais vamos mudar mãe?
- Vamos trocar as lâmpadas para as mais antigas, trocar o pacote da internet para o mais básico, mudar o chuveiro a eletricidade para o de gás e, infelizmente, cancelar a mesada que você me dá todo o mês – ela diz isso com uma tristeza na voz.
Felipe fica tão indignado ao ouvir isso que se revolta:
- Não, mãe! Isso eu não posso permitir?
Mesmo triste em não receber mais dinheiro do filho, Dona Glorinha diz suas razões usando um tom dramático:
- Filho, não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem – ela o dá um abraço. – Eu, todo o mês, tenho meu pouco dinheirinho lá no banco. Não vou precisar de sua ótima mesada!
Felipe só responde isso as explicações da mãe:
- Se a senhora vai ficar bem. Então tá tudo certo. – ele sorri.
Sem o filho ver, Dona Glorinha, ao ouvir isso, faz uma cara de raiva. Ela, depois que para de abraça-lo, finge um belo sorriso a ele.
Após estar tranquilo em saber que sua mãe estava bem, Felipe pergunta:
- Tem mais alguma coisa que devemos mudar?
Dona Glorinha, aproveitando a deixa do filho, faz ele se livrar também de uma coisa que gosta:
- Ah! Esqueci de dizer! Você vai ter que vender um dos seus carros!
Ao ouvir isso, Felipe reclama:
- Um dos meus carros?
- É – ela responde a pergunta com uma imensa satisfação.
Como era uma pessoa distraída, Felipe não percebe a voz de satisfação de sua mãe. Ele, desanimado por vender um de seus carros, a pergunta:
- Por que a senhora não vende uma de minhas bolas também?
- Não posso. Elas são do ‘Mão de Vaca’ – ela sorri.

Cena 4
A campainha toca repetidas vezes e Felipe, incomodado com o barulho, do seu quarto, grita:
- Já vou! Já vou!
Ao descer a escada que leva para a sala, Felipe, de pijama, nota que sua mãe já estava acordada. Como tinha sido acordado pela campainha, ele a pergunta com irritação:
- Pelo amor de DEUS, mãe! Quem em sã consciência apertaria a campainha de uma casa as seis e meia da manhã no sábado?!
Dona Glorinha, não responde a reclamação do filho, apenas comenta uma coisa que tinha acabado de pensar:
- Deve ser a pessoa que eu estou esperando?
Após ouvir o comentário de sua mãe, Felipe, ainda irritado, a pergunta:
- Pelo amor de DEUS, mãe! O que a senhora fez? – ele a olha com desespero.
- Nada – ela faz uma cara de santa. – Eu apenas pus um anúncio para alugar os dois quartos daqui de baixo.
- O que?! – para que a pessoa que estivesse tocando a campainha não fosse embora, ele sussurrou. – Mas, mãe? Nós já conversamos sobre isso?
- Sim. Mas o que você prefere filho? Gastar dinheiro comprando os aparelhos e com reforma para a academia que você quer montar aqui ou ganhar dinheiro alugando aqueles quartos inúteis?
Depois de ouvir os argumentos de sua mãe, Felipe, primeiro, olha para ela e, segundo, olha para a porta. Vendo que estava perdendo a parada para sua mãe, ele escolhe ir em direção a porta. Mas, vai resmungando:
- Que se dane!
Percebendo que tinha convencido o filho, Dona Glorinha o manda:
- Vá atender a porta! Vai!
Irritado por ter sido convencido, Felipe vai em direção a porta resmungando:
- Pelo amor de Deus! Tenho que fazer tudo que ela quer! Droga! ...
Mas, quando abre a porta e vê uma garota bonita, toda irritação de antes acaba. A garota, imediatamente, se apresenta:
- Oi. Tudo bem? Meu nome é Patrícia. Vim pelo anúncio – ela mostra um pedaço de jornal, onde estavam os classificados.
Felipe fica tão abobalhado com a beleza da menina que não a responde. Só fica lá, parado, olhando para ela.
Vendo que seu filho estava babando por sua nova inquilina, Dona Glorinha vai até ele, dá um tapa em sua cabeça e se desculpa por sua indelicadeza:
- Desculpe o meu filho? É que ele acordou agora e o cérebro dele ainda está dormindo – a moça sorri ao ouvir isso. – Tudo bem com você? – ela estende a mão para a garota.
Patrícia também estende a mão e as duas se cumprimentam. Após se cumprimentarem, Dona Glorinha a convida:
- Por favor, entre!
Antes de entrar, Patrícia a pede:
- Obrigado. Mas, vocês podem me fazer um favor?
- Sim, claro – ela lhe dá um sorriso.
- Vocês, por favor, podem pegar minhas malas e minha vó lá fora? Como ela está de cadeiras de rodas, não deu para trazê-la junto com as malas, sabe?
Ao ouvir que a moça precisava de ajuda, Felipe volta ao normal e se apresenta para o serviço com um grande sorriso no rosto:
- Opa! Pode deixar comigo! – ele vai rápido para fora.
Dona Glorinha vai atrás dele. Mas, antes de sair, pede a garota:
- Se você quiser, pode esperar ele trazer suas coisas aqui dentro?
- Obrigado – ela entra na casa.
Pouco tempo depois, Felipe traz, com dificuldade, as pesadas malas e sua mãe leva a avó da moça para dentro. A primeira coisa que a velha faz quando entra é reclamar:
- Puta merda! Não há homens como antigamente! – ela olha para Felipe.
Com vergonha do comentário da vó, Patrícia a exorta:
- Vovó Zuzu?! Por favor! – a velha atende o pedido da neta e se cala.
Dona Glorinha, tentando deixa-las confortáveis, as informa:
- Os quartos de vocês estão arrumados. Os dois tem televisão e em um deles tem suíte. Aqui é a cozinha, se quiserem comer alguma coisa? – ela aponta para a direita. Fiquem a vontade, viu?
A velha resmunga:
- Tanto faz!
Patrícia, ao ouvir o resmungo da avó, pede desculpas:
- Me desculpe o mau-humor da minha avó? É que hoje ela não tomou os remédios! – ela olha vovó Zuzu exortando-a.
Vovó Zuzu não liga para o olhar da neta e continua com a cara azeda.
Tentando ser simpático e educado com as novas inquilinas, Felipe as cumprimenta. Primeiro, diz a Patrícia junto a um abraço:
- Seja bem-vinda!
- Nossa, obrigado! Você é muito amável! – ela o abraça com um sorriso no rosto.
Depois, Felipe se agacha e cumprimenta vovó Zuzu estendendo a mão:
- Seja bem-vinda, vovó Zuzu!
A velha, ao invés de cumprimenta-lo, reclama mais uma vez:
- A minha neta você cumprimenta com um abraço e eu com um aperto de mão? Eu sei o que você quer, seu pervertido! – ela o olha com desprezo. – Você tá tentando me agradar para levar minha neta para a cama, não é? Confessa, seu tarado?!
Patrícia fica com tanta vergonha do comentário da avó que a exorta:
- Vó!!!!
Por estar encantado pela moça, Felipe diz:
- Tudo bem. Não tem problema, não.
Dona Glorinha, vendo que a situação estava ficando tensa, as sugere:
- A viagem deve ter sido longa? Por que vocês não vão descansar?
Patrícia, aceita a sugestão, dizendo:
- É. A senhora tem razão. A viagem foi longa mesmo – ela faz uma expressão de cansaço. – Onde ficam os quartos?
- Ficam ali – ela aponta para a esquerda. – É só entrar nesse pequeno corredor e virar a direita.
- Tá bom, obrigado! – ela, antes de sair, olha para as suas malas.
Ao ver ela olhando para suas malas, Dona Glorinha a tranquiliza:
- Não se preocupe com suas malas. Já a levaremos para o seu quarto.
Patrícia, feliz com a hospitalidade que estava recebendo, a agradece:
- Obrigado, senhora! Vocês estão sendo muito amáveis! – a mãe de Felipe sorri.
Patrícia sai da sala levando sua avó para os quartos.
Sem elas na sala, Felipe corre para o seu quarto. Depois de dois minutos, ele volta vestindo uma roupa esporte e vai até a porta. Antes de sair, Dona Glorinha, curiosa ao vê-lo assim, o pergunta:
- Onde você vai?
Felipe sai de casa e de fora a responde:
- Vou conquistar uma garota!
Após ouvir isso, Dona Glorinha se lamenta:
- Aí, meu DEUS! Mais uma garota pra me dar trabalho!

Cena 5
Como não conseguia dormir, Patrícia, de pijama, foi até a sala. Quando chegou lá e percebeu que a luz da cozinha estava acesa, ela comentou:
- Que estranho! São duas horas da manhã e a luz está ligada! Será que tem um ladrão aqui?
Curiosa, Patrícia caminha até a cozinha. Ao chegar lá, vê Felipe, também de pijama, sentado a mesa pensando. Vendo-o assim, ela o pergunta brincando:
- Não vai dormir não, rapaz? – ela sorri.
Felipe não acha graça na brincadeira da moça. Tanto que a responde sério:
- É que eu não consigo dormir.
- É.. eu sei como é isso – ela diz isso com um desânimo na voz.
De repente, Felipe tem uma ideia:
- Patrícia? Como não conseguimos dormir, vamos ver a lua da sacada tomando um champanhe?
Antes de aceitar o pedido, Patrícia o pergunta:
- Que chique! – ela sorri. – Mas e o champanhe? Onde está?
- Está aqui no freezer – ele aponta para a parte de cima da geladeira. – Vai lá na sacada e me espera, enquanto eu pego o champanhe e as taças, tá?
- Tá bom – ela sai da cozinha por uma pequena porta e vai para a sacada.
Enquanto pegava as taças e o champanhe, Felipe se incentivava:
- Vamos garoto que esse peixe é grande!
Já na sacada, Felipe coloca as taças em uma pequena mesa de madeira, enche uma delas com champanhe e a dá para a moça:
- Toma!
Vendo que ele só encheu uma taça, Patrícia pergunta:
- Você não vai beber também?
Contrariado, mas, ao mesmo tempo, tentando agrada-la, Felipe também enche a outra taça. Os dois com taça na mão ficam apoiados na mureta e olhando para a lua. De repente, Patrícia começa um papo:
- Mas, por que você não conseguiu dormir? Ansiedade?
- Não. É que fica difícil dormir quando se tem um trator no quarto ao lado do seu. Minha mãe ronca pra caramba! – ele sorri.
- Para! – ela sorri e dá um fraco tapa em seu braço. – Ela é um amor.
- É verdade! – ele faz uma expressão feliz. – Mas e você? Por que não conseguiu dormir?
- O meu foi tristeza mesmo! – ela faz uma expressão melancólica.
- Mas por que? – ele diz isso com surpresa na voz.
Como não queria contar a história, Patrícia dá uma desculpa:
- É uma história muito longa e você não vai querer ouvir!
- Claro que vou! E, nós temos a noite inteira pra isso! – ele, primeiro põe a taça em direção da lua e, depois toma em um gole só todo o champanhe.
- Tá bom, então. Já que você insiste – ela toma um pouco de champanhe. – Bem... – enquanto Patrícia começava a contar, ele enchia a sua taça com mais champanhe – começou quando eu conheci há quatro anos o Ben, meu ex-namorado. No começo do namoro, ele era fofo, cavaleiro e me respeitava. E olha que era guitarrista de uma banda de rock. Mas dois anos depois de começarmos a namorar, ele...
Ela é interrompida por que Felipe, como era fraco para beber, começou a ficar tonto, após tomar mais uma vez, em um gole o champanhe:
- Nossa! – ele coloca sua mão acima dos olhos.
Patrícia, vendo-o assim, o pergunta:
- Você tá passando mal?
Tentando não mostrar que era um fraco para beber, Felipe a pede:
- Não, Tudo bem. Pode continuar a história.
- Bom... – mesmo ficando tonto, ele volta a encher sua taça – como eu estava dizendo, o Ben, dois anos depois, começou a me trair com umas maria-paletas. O pior não foi ele me trair. O pior foi... – Felipe tomou o terceiro gole de champanhe de uma vez só – ele ficar violento! Ele uma vez tentou me bater e, quase, nesse dia, matou minha avó. Eu, no mesmo dia, pedi uma ordem de restrição e me mudei de cidade. Mas, eu tenho medo dele me encontrar, sabe? – ela toma mais um pouco de champanhe.
Já bêbado, Felipe comenta sobre a história dela com a voz meio enrolada:
- Sabe, moça? – ele mexe tanto a mão que segurava a taça que ela cai e quebra. – Eu acho que você é uma burra – Patrícia faz uma cara de choque, depois que ouve isso. – Mas você tem uma solução? Sabe qual é? – primeiro, ele ri. – Namorar comigo! – depois bate no peito mostrando confiança. – Eu, quando te vi pela primeira vez hoje, eu já me apaixonei por você! – ela sorri, gostando do que acabou de ouvir.
Após dizer isso, Felipe cai como uma pedra no chão e desmaia.

Cena 6
Felipe está no seu quarto. Deitado em sua cama. A primeira coisa que faz ao abrir os olhos é perceber que sua mãe estava ao seu lado segurando uma bandeja. Dona Glorinha, depois de vê-lo acordar, o deseja:
- Bom dia, bêbado! – ela sorri.
Felipe se levanta para ficar sentado na cama. Mas, quando faz isso, sente uma forte dor de cabeça. Tanto que ele reclama a mãe:
- Nossa! Que dor de cabeça, mãe!
- Também, você ficou bêbado com um champanhe vagabundo, filho! – ela dá vários tapas fortes no braço dele.
Como estava doendo, Felipe pede para sua mãe:
- Para mãe!
- Tá bom. Mas você merece levar muitos tapas, viu? – ela o ameaça mostrando sua mão em forma de concha.
Enquanto acariciava os lugares que sua mãe tinha batido, Felipe a pergunta, curioso:
- Mãe? Quem me trouxe aqui?
- Fui eu e a Patrícia.
Ao ouvir o nome dela, Felipe se lamenta:
- Ah, meu Deus! Não acredito!
- É pra se lamentar mesmo! Por que enquanto nós te levávamos, você acordou e, bêbado, vomitou no vaso da minha samambaia! – ela diz as últimas palavras com raiva.
- E eu vomitei na frente dela?
- Sim.
Mais uma vez, Felipe se lamenta, agora pondo seu travesseiro na cara de vergonha:
- Não acredito!
- É filho! Você, como os jovens falam, ‘pagou um mico’! – ela ri.
Felipe tira o travesseiro da cara e curioso, pergunta a sua mãe:
- Mas ela disse alguma coisa? Reclamou?
- Não, nada! Até se preocupou com você. Tanto que foi ela que fez essa sopa de fubá – ela aponta para a tigela que estava em cima da mesa de cabeceira – que eu te trouxe. Não se preocupe, tá bom? – ela faz um carinho em sua cabeça. – Ela ainda não vai te dar um toco!
Mesmo ouvindo coisas boas, Felipe faz uma cara de quem comeu e não gosto. Ao notar isso, Dona Glorinha o pergunta:
- Filho, por que essa cara feia? Acabei de te dar boas notícias?
- Não é isso, mãe! É que eu estou com vontade de vomitar... – ele coloca a mão na boca e corre para o banheiro.
Dona Glorinha, depois de ver esta cena, comenta sorrindo:
- Filhos! Mesmo crescidos continuam uns irresponsáveis!

                                                                     FIM 

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