quinta-feira, 4 de junho de 2015

UM CONTO PARA O FERIADO!!!

Desculpe pessoal por não postar nada ontem, pois o sono tomou conta de mim. Hoje, neste feriado, resolvi colocar um conto de Luis Fernando Veríssimo que gostei muito do livro: A VELHINHA DE TAUBATÉ (a foto está em baixo, quem gostar) , que li a um tempo atrás e gostei muito! Espero que gostem!


O HOMEM SITIADO

Sempre fora um introvertido, mais à vontade entre os livros do que entre os homens, e à medida que o tempo passava ia introvertendo-se cada vez mais.
Morava numa casa em Botafogo, a mesma casa onde tinha nascido e que agora era a última casa da rua, espremido entre dois edifícios, na frente de um terceiro maior ainda, atrás de outro ainda maior.
Costumava dar longas caminhadas pelo bairro. Ia buscar o jornal e o pão, olhar as pessoas, exercitar as pernas. Agora não podia fazer mais isto. Era perigoso atravessar as ruas. E havia os assaltos. Mesmo de dia. Depois do sétimo assalto, desistiu de dar suas longas caminhadas.
Desistiu do jornal. De qualquer maneira, preferia os livros.
Não olhava mais as pessoas do bairro. Todas lhe pareciam feias e agressivas. E sempre prestes a assaltá-lo de novo.
Agora o pão quem lhe trazia era a empregada, que estava com ele há 20 anos. Lourdes ou Aparecida, ele nunca se lembrava direito.
Ainda experimentou caminhar na calçada em frente a casa, à tardinha. Desistiu depois que uma moto, dirigida por um jovem obviamente dopado, subiu na calçada e quase o imprensou contra uma parede.
Passou a caminhar no jardim dos fundos da casa. Mas não gostava de ser observado das áreas de serviço dos edifícios em volta. As crianças atiravam bolas de papel, mirando na sua cabeça.Uma vez uma lata de refrigerante passara rente ao seu nariz. Desistiu de caminhar no jardim.
Também desistiu de ficar na sala da frente da casa, depois que houve uma mudança no trânsito e pesados ônibus começaram a passar na sua rua. O chão tremia, as velhas vidraças tremiam, o ruído era de enlouquecer.
Recuou para a biblioteca.

Não tinha família. Vivia da renda de algumas propriedades que o pai o deixara. Na mocidade fizera o possível para ter uma vida social. Apesar dos colegas acharem que ele era meio esquisito - "esse aí prefere livro à mulher"-, chegou a ter um bom círculo de amigos, até namoradas. Mas as pessoas, cedo ou tarde, o decepcionavam. Com Mariana - ou Mara, ou coisa parecida - até falara em noivado. Mas ela era uma pessoa muito exigente. Exigia que ele prestasse atenção no que ela dizia, por exemplo. Estava pedindo demais. Na certa, depois do casamento, seria uma daquelas mulheres que querem um mínimo de atenção. Nunca casou.
Nunca chegou a pensar na frase, mas, comparando a vida com os livros, coisa que fazia sempre, poderia dizer que a vida era realista demais. Mal-estruturada, com uma linha narrativa caótica, personagens mal resolvidos, situações de péssimo gosto, cenas chocantes. Avida era naturalista e ele nunca gostara do naturalismo. Já nos seus livros tudo fluía como ele queria. Mesmo por que, só lia os livros que já conhecia e amava. As grandes sagas de família do século XIX. Sabia o nome de todos os personagens de cor, desde o patriarca até o mais humilde cocheiro. Aquele era o seu mundo, intocado pelo tempo. Sentava-se na poltrona mais funda da biblioteca, no canto mais longe da rua, onde o barulho do trânsito só chegava como um ronco abafado, e mergulhava no...
Anastácia, ou Ernestina, ou como quer que se chamasse, o interrompia com a notícia de novos avanços do inimigo.
- Tem uma infiltração de água no banheiro, doutor. O teto vai cair.
Ou:
- Ratos na sala! Ratos na sala!
Ou:
- Tem um moço aí da prefeitura. Vão alargar a rua e tirar todo o pátio da frente.
Ele se comprimia contra o espaldar da poltrona, como se quisesse desaparecer. Dava ordens vagas. Chame o bombeiro para cuidar dos ratos. Dê veneno para o moço da Prefeitura. Me deixe em paz!

Um dia a empregada entrou na biblioteca com a última catástrofe - ratos no pátio ou tratores na sala - e não o encontrou. Encontrou o seu copo de leite vazio, o farelo do pão, mas ele não. Depois de uma semana sem sinal do doutor, ela fez suas malas e foi embora. Não sabia a quem avisar do desaparecimento. Não havia parentes. A polícia? Era muito arriscado. Fechou a casa, enfiou a chave por baixo da porta e desapareceu também.

Ele vive, feliz, nas páginas de um romance inglês. Mora numa enorme casa de campo, sem edifícios em volta, com velhos amigos. Sabe exatamente tudo que vai acontecer, dia a dia, pois já leu o romance dezenas de vezes. Nada o surpreende, nada o ameaça. O romance para o qual fugiu - não me pergunte como - está numa estante da velha biblioteca, encadernado. Nada ultrapassa as suas grossas capas. Nem o barulho dos ônibus, nem a algazarra das áreas de serviço. Ele passa seus dias acompanhando a vida dos seus personagens queridos, às vezes até dando palpite, discretamente. E quando quer ficar sozinho... Bem, a casa de campo do livro também tem sua biblioteca, com grossos volumes encadernados. É lá que ele está agora, cochilando com um livro sobre o peito, um copo de cherry do lado, sorrindo antes do jantar.
Ainda não ouviu o ruído que em breve o acordará. São traças. Traças gigantescas, maiores do que ele, que já devoraram as estrebarias, os parques, toda uma ala do casarão e 17 personagens e em breve chegarão ao seu pé.

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