quarta-feira, 11 de novembro de 2015

SESSÃO NOVOS TALENTOS - HELOÍSA SCHIFFEL

Lágrimas no Papel ou A Menina dos Olhos Dourados

Prólogo

Q
uando eu tinha apenas 18 anos, muitas mudanças ocorreram comigo, e não, não era apenas puberdade.
Entendo que muitas pessoas se assustam, tentando imaginar o que poderia ter acontecido, embora tente ao máximo evitar esse assunto. Nem posso imaginar o que aconteceria se explicasse para cada pessoa que perguntou.
                Apesar de alguns anos terem se passado, me lembro de tudo em pequenos detalhes, portanto, essa aventura não será esquecida facilmente, acho melhor eu contar para entender.
                Abro os olhos, estou em frente ao Orfanato, olho sua estrutura ao longo dos anos e relembro as palavras de um velho amigo “O tempo é a única coisa inevitável”, caminho pela velha trilha, o silêncio era absoluto tirando o fato de as folhas mortas estalarem mais que antigamente. Encontro o que procuro com facilidade, apesar de não ter vindo tantas vezes quanto o cão Hati ia visitar seu dono na estação de trem, conheço esse lugar como a palma da minha mão.
                E lá estava ela, é claro que estaria, A Porta, a madeira velha, a ferrugem das dobradiças, e a fechadura que não é aberta por nenhuma chave existente no mundo, vasculho minha mente, tentando achar um motivo para chorar, não consigo, então pego o frasco preso em meu cinto e pingo uma gota na cúpula ao redor da fechadura, fazendo a porta ranger lentamente, se abrindo por completo. Tudo estava exatamente como me lembrava, teto alto, com lindos lustres, pilares grandiosos, estátuas de ouro e bronze, paredes cobertas de grandes ilustrações da Grande Batalha, e claro, o Espelho, observo a imagem do salão refletida nele, o brilho e a esplêndidade de tudo, e nem dou conta de estar ouvindo passos perante a porta. Deve ser algum mortal curioso, devo ter esquecido de fechar a porta, mas ela é mágica, deveria ter fechado sozinha no segundo depois que entrei. Fito o invasor, pronta para fazer algo, quando me dou conta do que estou vendo. Cabelos negros, brilhantes e lisos que caíam sobre as grossas sobrancelhas, realçando os olhos azuis que conhecia como ninguém, a linha curvilínea que estava estampada em seus lábios, parecia tão espantado quanto eu.
                - Will?
                - Olá, Jamie.

1º Capítulo: “O Impacto”

                O flash dispara, Jamie fecha os olhos e ainda vê na escuridão pontos brancos, encarou a parede, piscando diversas vezes esperando recuperar a visão.
                “Odeio tirar foto”, pensou ela enquanto levantava e se dirigia para a porta enrubescida. Harry a esperava do lado de fora, braços cruzados e encostado na parede, exibiu um sorriso sarcástico:
                - Já foi torturada o bastante? – pegou o celular e rapidamente tirou uma foto de sua reação, antes mesmo de ela perceber.
                - Harond Steves Jr! Você sabe que odeio tirar foto! Se a tortura fosse uma pessoa, com certeza não me deixaria em paz – seu rosto era calmo, mas seus olhos indicavam irritação.
                - Mas então... Vai no baile? – perguntou ele, colocando as mãos nos bolsos, olhando para baixo, sua armação quadrada e preta brilhou em contraste com a luz do corredor do colégio, ele respirou fundo, seu peito arfou, e em uma fração de segundo fitou Jamie, que nem neste mundo estava.
                - Jay?
                - Ah? Oi! – ela estava perdida em sua mente, observava sem objetivo pela janela, o dia estava chuvoso, o céu lembrava cor de asfalto, as gotas de chuva na janela pareciam lágrimas, e sem saber o motivo, Jamie teve aquela sensação de reconhecimento, conseguiu nomear cada uma delas, como se fossem nomes de poções mágicas... sua mãe sempre dizia “A lágrima de uma pessoa pode dizer muito sobre ela”, Jamie nunca entendia, e sua mãe nunca explicava.
                - Vai no baile? Às vezes parece que está em outro mundo- Harry estava mais sério agora, quase irritado. Jamie nem precisou pensar para responder, certamente ele já imaginara.
                - Claro que não!- franziu a testa – Doze anos nessa droga já não é o bastante?- pegou sua bolsa dentro do armário, um sorriso sarcástico e desafiador surgiu em seu rosto- Estou ocupada demais tentando ganhar do melhor jogador no Call of Duty.
Harry ergueu uma sobrancelha, pronto para gargalhar- Topa depois da aula?
- Claro.

dc

o


 quarto de Harry era como uma segunda casa para Jamie e ele, como um irmão, passou pela porta, e viu pela trigésima vez sua suposta “casa”, as paredes eram de um azul escuro, quem nem era visível pela quantidade de pôsteres grudados, Nirvana, Metallica, Helloween, Avenged, Iron Maiden e vários do The Walking Dead, uma cama de casal, uma estante cheia de filmes e jogos, um monitor e um retrato dele e Jamie com 8 anos, quando estavam na praia, ela toda coberta de areia, um sorriso de orelha a orelha, não se lembrou da última vez que se sentiu tão feliz, não sabia se era porque já estava crescida ou se o problema era ela mesmo, mas ela não sabia, não fazia ideia do que era essa sensação, que nada estava completo, ela não se sentia como ela mesma, não sabia descrever a si mesma, não sabia quem era ou o que deveria ser, e tinha a sensação que iria descobrir da pior forma. Estava tão confusa, essa é a expressão correta? Não sabia o que significavam os sonhos que anda tendo, sempre os mesmos, toda noite, um garoto, não conseguia ver seu rosto,  mas sentia que ele estava triste, pegava um frasco que na tampa possuía uma pedra brilhante, bem chamativa, e ao longo o frágil vidro era incrustado de pedras preciosas, dentro havia um líquido transparente que não reconhecia, mas parecia perigoso, acordava suando no momento em que o vidro tocava os lábios do misterioso garoto, afinal, estava  enlouquecendo? O que havia de errado? Estava literalmente concentrada, enquanto seu repentino absurdo era quebrado pelo som da guitarra de Harry.
- Olha a nova música que fizemos- ele tocou as primeiras notas que pareciam ser Grunge Rock, estavam saindo exageradamente altas através do amplificador, até que se dá conta. – Jay? Você “tá” bem? Está pálida, venha aqui – a enrolou em seus braços, verificando sua temperatura com as costas das mãos, ela estava gelada e suando frio.
Ia responder, mas seus lábios mal se mexiam, sentiu suas pálpebras ficarem pesadas e só viu escuridão.
Jamie abriu os olhos, havia algo errado, não estava  mais no quarto de Harry, ou melhor, no atual quarto. Se lembrava dele melhor do que lembrava as 10 Técnicas de Pinceladas à óleo de seu livro de Arte preferido “Arte à Mão”, as paredes com papel de aviõezinhos vermelhos e amarelos, o fundo azul, como um dia ensolarado, não havia pôsteres, a velha cama, pequena, decorada à parecer um avião, muitos e muitos brinquedos espalhados pelo piso de madeira, brincando com eles, havia um jovem garotinho e ao seu lado, uma menininha, as sardinhas destacadas pelos olhos castanhos-dourados, o cabelo parcialmente ruivo um pouco mais claro que o atual, os lábios levemente rosados. Em trilhões de pessoas nunca seria capaz de confundir aquelas duas crianças, sabia exatamente seus nomes. Harry e Jamie.
Mas não sabia o que estava acontecendo. Podia se ouvir falando, mas não conseguia sentir o tato de seu toque, sabia que era real, mas não como. Sentiu o familiar cheiro de cookies de chocolate da Sra. Steves saindo do forno. Claro, era a casa de Harry, na tarde em que o conheceu.
- Como é seu nome?
- Jamie
- Legal , Jamie, mas posso te chamar de Jay?
- Jay?- Harry a mexia e chacoalhava, abriu os olhos lentamente e sua visão se focou, estava em seu colo e pôde ver as partituras espalhadas pelo chão e dentre todas elas uma única chamou sua atenção “A Menina dos Olhos Dourados” – Jay? Meu Deus! Acorde! O que está acontecendo?  Vou ligar para a ambulância!
- Não Harry, está tudo bem – sentou-se no chão, estava tonta, sentia a ânsia de um marujo não treinado em alto mar, sua boca estava seca e com gosto de bile, o que quer que tenha acontecido, queria ir embora, tomar um banho e esquecer.
- Jay, desmaiou por cinco minutos, você comeu hoje? – “Nossa, pareciam horas” pensou ela rapidamente, Harry estava com os olhos espantados e preocupados.
- Comi Harry, agora preciso ir embora, a gente se vê amanhã- disse pegando sua boca no meio de partituras de música – Ah! Se importaria de me emprestar essa? – pegou a folha amarelada e olhou esperançosa para Harry.
- Por quê?- franziu as sobrancelhas, fazendo sua testa ficar enrugada.
- Gostei do título.

dc

A
ndava rapidamente, as pegadas enlameadas marcando sua trajetória , o frio e a umidade faziam sua respiração virar gotículas de vapor, o cascalho estava escorregadio, Max andava incansavelmente, tantos anos de treinamento fizeram-no ficar forte, não havia mais recebido notícias de Megan.
A rua estava deserta, os subúrbios normalmente são assim, cada casa não muito diferente da outra, mas ele podia ver, para os mortais é apenas uma casa branca normal, ele via a diferença, ela era visível à metros de distância. A Marca, A Lágrima Infinita, a mais poderosa, a mais divina. Era incrustrada na caixa de correio, brilhando infinitamente.
O barulho do asfalto úmido em contato com a sola de seu sapato cessou quando pisou levemente na grama molhada. Uma brisa congelante veio de repente, se aproximou da entrada, subiu os pequenos degraus, a maçaneta embaçou rapidamente ao seu leve toque, a girou lentamente, a escuridão deu lugar à luz que através da fresta iluminou todo o cômodo, entrou em estado de choque, atrás dos móveis só viu uma coisa.
Sangue.

dc
J
amie preferiu ir caminhando para sua casa, podia pensar claramente, seus braços estavam cruzados com o objetivo de diminuir o frio, vapor saía de sua boca conforme respirava. Sua jaqueta de couro estava úmida por causa do sereno resultante da temperatura e ela se dispersou pensando o porquê de ter vestido couro em um dia frio. Mas nenhum pensamento do mundo a distrairia desse.
Algo estava acontecendo com ela, e descobriria, mesmo não sabendo por onde começar. A cada passo sua mente era dominada por uma nova hipótese da situação, poderia estar sendo drogada no café da manhã, estaria louca, poderia ser filha de alienígenas, ou simplesmente estar em alguma espécie de coma, ou estar bêbada sem perceber, dadas as circunstâncias, nenhuma ideia parecia absurda.
15 minutos depois avista sua casa, aquele alívio e conforto do lar tomou conta, até seus olhos cegarem por luzes brilhantes que piscavam, chegou mais perto e enxergou de onde vinha, as letras escritas ao contrário.
POLÍCIA E AMBULÂNCIA.
Apressou o passo, até começar a correr em direção às luzes, o cascalho se agitava quando em contato com seus sapatos, criando um barulho de asfalto e cheiro de terra úmida, sua respiração já estava ofegante a medida que se aproximava do veículo, entrou em estado de choque e continuou correndo, um policial a impediu:
- Não pode entrar aí garota, é uma área restrita de investigação.
- Mas é minha casa, eu posso entrar, investigação? O que houve?
- É filha dos Gray? – ele parecia horrorizado
- Sim, sou eu, o que houve?
- Sinto-lhe dizer, mas seus pais não estão mais entre nós- o policial procurou ser o mais gentil possível, demonstrando compaixão.
- Mas – ela respira fundo, tentando entender – Como assim? Não entendo, e-eu não acredito.
- Recebemos uma ligação anônima, falando que havia muito sangue e nos disse o endereço, a porta estava aberta, sem sinais de arrombamento, então acreditamos que seja alguém que tenha a chave, há mais alguém com a chave da casa?
- Mas, Meu Deus! Não, não há ninguém!
Ele encarou e olhou para baixo por alguns segundos e virou-se para falar com seu colega.
- Não, vocês estão mentindo- ela disse, enquanto corria em direção a porta de sua casa, um policial a tentou impedi-la.
- Não, deixe-a ver por si mesma.
Estava tudo normal, a sala do jeito que sempre foi, se não fosse aquela mancha de sangue ao lado do sofá, se não fossem as viaturas e suas sirenes, poderia fechar os olhos e estar em um dia comum, poderia sentir o cheiro dos brownies que sua mãe sempre fazia nas tardes em que Harry estava lá, e de seu pai a empurrando no balanço e tentando explicar a Harry como se faz a barba, poderia lembrar das noites em que sua mãe lhe contava histórias sobre lágrimas, heróis e guerras que eram sempre vencidas, mas abria os olhos e via o caos.
E ela, que sempre achou que a morte não era um erro... sempre acreditou que tudo acontecia por um motivo, mas não havia nada que pudesse imaginar para explicar a si mesma. A morte é um erro? Pareceu, quando a sirene da ambulância desligou-se e as macas cobertas de saco preto eram colocadas pelos peritos, que fecharam a porta. E ela, que nem pode dizer adeus, disse para si mesma, esperando que pudessem ouvir, enquanto sua vida se afastava a cada segundo, deixando apenas o farfalhar de folhas e seu sussurro.
Aquilo foi o Impacto, mas como todo impacto, haveria sua superação, e com a superação, viria à vingança.
E ela jurou para si mesma.

Teria sua vingança.


Nenhum comentário:

Postar um comentário